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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

15.10.21

Dois anos de blogue

V de Viver

adi-goldstein-Hli3R6LKibo-unsplash (1).jpg(Fotografia: @adigold1)

Dois anos de blogue. Dois anos de alma a nu. 

É aqui que partilho os meus sentimentos. É aqui que mostro a verdadeira montanha russa de emoções que sou. Aqui posso ser eu. Aqui ninguém julga. Aqui há pessoas sábias, daquelas que todos queremos ter por perto. Aqui as pessoas são reais. Têm dores, têm defeitos, têm cicatrizes. E mostram-nas, tal como eu, sem filtros. 

Os blogues deveriam ser a rede social de excelência. Se é para gastar cada segundo da nossa vida agarrada a um ecrã, então devia ser aqui. 

Este ano de 2021 não escrevi tanto por aqui. Foi um ano e tanto. Mudei a cada dia. Sim, a cada dia. Juro-vos que senti isso. Como se trocasse de pele a cada vinte e quatro horas. Errei muito, aprendi ainda mais. 

Senti muita dor e sei que isso foi visível por aqui. Muitos de vocês que me lêem disseram, mais do que uma vez, que deveria procurar ajuda. Agradeço-vos o conselho. Como vos agradeço o facto de estarem sempre ai, de me lerem mesmo quando as minhas palavras são amargas e carregadas de dor. 

Continuo a olhar para este blogue como o meu lugar seguro. Continuo a amar cada palavra que escrevo e cada palavra vossa que leio, embora não vos tenha lido tanto durante os últimos meses. 

Em dia de aniversário do blogue eu teria muito mais para escrever. Mas no fundo aquilo que importa é agradecer-vos por continuarem aqui nos meus momentos menos bons. Por me continuarem a ler mesmo quando as minhas palavras são lágrimas envoltas em escuridão. 

Sou-vos eternamente grata por estarem aí. É difícil explicar como é bom saber que aqui as pessoas ouvem-me (lêem-me), acarinham-me, dão-me força, mesmo sem me conhecerem. Se bem que no fundo, ninguém me conhece como vocês. Vocês lêem o mais fundo dos meus sentimentos. A verdadeira pessoa que eu sou apenas vocês conhecem. Acreditem, nunca ninguém me viu tão nua quanto vocês. 

Por isso obrigada. Muito obrigada a todos que continuam por cá a cada dia. 

06.10.21

Solidão e um copo de vinho

V de Viver

Um copo de vinho branco na mão pode ser de uma enorme companhia. Sentada na varanda a ouvir música, bebo o vinho e engulo as lágrimas. Não estou triste. Estou reflexiva. Há dias assim, como hoje, em que acordei com as palavras a saltar da cabeça para as pontas dos dedos. Precisava escrever. Escrevi. Nem sempre digo coisas com sentido, mas é tudo muito sentido. Já disse isto hoje. O vinho está fresco, a noite agradável, a música é nostalgia. Mas não é sempre? Passa-me a vida em faixas pela mente. Como se um filme lá estivesse a correr. Erros e acertos. Lágrimas e sorrisos. Pessoas que me marcaram. Umas pelo bem outras pelo mal. Faz parte. Tudo serve para aprender. Bebo mais um gole de vinho e olho as luzes da cidade. Sinto-me privilegiada por ter esta vista sobre a cidade. E grata também. Penso, não pela primeira vez, que tenho um fascínio por varandas, por luzes da cidade e por vistas desafogadas. Será porque, por dentro, me sinto aprisionada? O vinho está fresco, mas queima-me a garganta ao descer, como se estivesse em chamas. Ele não está, e eu? Não me sinto sozinha, ou sinto? Penso nas pessoas que passaram na minha vida. Não deixa de ser curioso que eu pensasse que só teria um amor. Ah, quando somos adolescentes temos uma ideia tão deturpada da realidade da vida! Dou-me conta que podemos, sim, amar mais do que uma pessoa na vida. Refiro-me, como devem ter percebido, ao amor romântico. Sim, porque com certeza amamos muita gente na nossa vida, pessoas além desses amores substituíveis. Porque há amores que não o são, e aqui recordo os meus avós, a minha mãe, a minha irmã. Nunca ninguém poderia substituir esses amores. Mas os outros sim. Não sei se substituir será a palavra mais correta, acredito que cada pessoa pode ser guardada numa gaveta no nosso coração. Da mesma forma que acredito, cada vez mais, que temos lá muitas gavetas. Talvez nunca um amor substitua outro, mas quanto a isso não vos falo com certeza. Mas é após mais um gole de vinho que vos digo que podemos sim amar mais do que uma vez, daquela forma que nos faz aquecer o coração como o vinho me aquece agora a garganta. Há tempos disse que não acredito no amor. Nunca acreditem nas palavras de uma pessoa magoada. Eu acredito no amor, só não sei se consigo voltar a senti-lo. Mas voltei a ter esperança de que sim. Talvez, um dia. Não hoje. Hoje vou ficar apenas aqui no meu lugar seguro, com a minha música, o meu vinho e as minhas lágrimas silenciosas.

06.10.21

Cura

V de Viver

Outubro. Outono. Outro ciclo. Outra mudança de pele.

Dor. Cura.

Podemos curar sem dor, mas acredito que curamos mais profundamente através dela. Suportando a dor. Olhando para ela de frente. 

Pode ser perigoso olhar para a dor se a encararmos durante muito tempo sem falar com ela. Mas se lhe sussurrarmos ao ouvido, se a acolhermos dentro de nós, se a cuidarmos, acredito que nos podemos curar. 

O último ano tem sido duro. Mas tem sido também de muito crescimento. Mudei a cada dia. Senti-me, mesmo, a mudar a cada dia. Sentimentos bipolares, eu diria. Hoje estava bem, amanhã mal. Num minuto sorria no seguinte chorava. 

Submersa. 

Durante muito tempo não consegui respirar direito. Como se um gigante me pisasse o peito, doía, o ar passava a muito custo. 

Percebi então que toda a dor é necessária ao nosso crescimento. Que cada lágrima pode ser usada como um degrau para emergir. Que cada situação nos trás sabedoria. Que crescer dói, sim. Mas é tão bom!

Olho para quem era há um ano atrás, e tanta coisa mudou. As dores não são mais as mesmas, e aquilo que me faz feliz também não. O que ontem era, hoje já não é. Coisas importantes tornam-se insignificantes quando comparadas com outras. A vida é curta e é dura. E só temos uma coisa a fazer: ser mais dura que ela. Mas sem perder a ternura. Espero não perder a minha. 

Sinto-me fria. Muito mais fria do que era há um ano atrás. Continuo a sorrir, mas já não sorrio tanto. Continuo a confiar, mas já não confio tanto. Continuo a sentir, mas já não sinto tanto. E é esta última a que mais me assusta. Tenho medo. Medo de deixar de sentir. Medo de não voltar a amar como já amei. Medo de não me conseguir entregar como já me entreguei. Medo de não voltar a sorrir como já sorri. 

Mas estou bem. Acreditem, estou muito melhor do que estava há uns meses atrás. Aprendi que a dor, por mais que doa, não nos mata. Por mais que as pessoas nos possam arrancar um bocado, não conseguem nunca levar tudo. E que, no fundo, elas só nos levam algo se nós o permitirmos. 

Mas mesmo assim, sou outra. Não sou a mesma de há um ano atrás, nem de há um mês atrás, nem, para ser totalmente sincera, de há um paragrafo atrás. Estou em constante mudança. E as palavras saem-me, ultimamente, assim em enxurradas nem sempre com sentido. Mas são sentidas. E é por isso que eu escrevo. Para me permitir sentir. Porque é sempre na escrita que me permito sentir. Que me perco e que me encontro. É a melhor terapia. Olhar para dentro e escrever: qualquer um que consiga fazer isto conseguirá curar-se. 

 

26.09.21

200km/h

V de Viver

Foste a pessoa com quem mais me identifiquei na vida. A paixão mais louca, mais assoladora e assustadora. Fiz contigo tudo aquilo que sempre disse que não faria com ninguém. Foste o louco onde a minha loucura encaixou melhor. O mais reciproco que tive. Foste dor e prazer. Luz e sombra. Frio e calor. Foste emoção forte. Foste quem me proporcionou a realização de um sonho louco. Foste vento na cara, cabelos desgrenhados e corpo suado. Foste loucura pura. Lábios, olhos, peito e braços. Foste sorrisos sinceros, vulnerabilidade. Sexo puro e paixão ardente. Corpo com corpo, alma com alma. Fomos tantas vezes um só. Foste pôr do sol junto ao mar. Reflexo brilhante na água, gaivotas no céu, vento no rosto. Foste mãos dadas no carro, mãos nas pernas enquanto desafiávamos o vento. Foste velocidade, adrenalina, sangue quente a correr nas veias. Não sei se foste amor, não sei se poderíamos ter sido amor. Foste fruto proibido. Furacão que virou a minha vida do avesso. Foste coração doce em corpo de monstro bruto. Foste carinho. Foste, digo-te agora em lágrimas, das melhores emoções que tive na vida. Foste tudo isso e podias ter sido muito mais. Lamento a tua falta, mas lamento ainda mais porque sinto que me queres tanto como eu te quero. Choro este amor proibido, mas choro-o apenas por dentro. Não verto mais lágrimas por ti porque, no fundo, sei que se tivesses vontade de ficar, ficarias. Porque és alma selvagem e só fazes aquilo que queres. Ninguém te dá ordens, ninguém te submete a nada. Mas eu já te conheci vulnerável. Nos meus braços foste vulnerável, foste humano, foste tu próprio. Livre e selvagem, mas preso pela paixão que não conseguias negar que te corria nas veias. Quem ama tudo pode, por isso sei que não era amor. Mas sei também, raios me partam se eu não sei, que me continuas a olhar e a desejar da mesma forma. Foste o meu erro mais bonito, a maneira mais bonita de errar. Agora só resta saber: terás sido tudo isto de verdade, ou será ilusão minha? 

Sinto a tua falta todos os dias. Mas não te o digo, escrevo-o aqui apenas. E não te o digo porque não suporto mais ouvir a tua boca dizer não enquanto os teus olhos e o teu corpo dizem sim. 

É isto tudo, foste isto tudo, podias ter sido tudo. Ou então eu estou louca. Da forma que só contigo fui louca, da forma que me ensinaste a ser louca e me provaste que por muito louca que eu seja, existe sempre um louco mais louco que eu, para me fazer companhia na loucura. 

21.09.21

O Mundo está podre

V de Viver

O mundo está podre.

Não dá para confiar em ninguém. Meio mundo quer lixar outro meio mundo. As pessoas lutam por ficar por cima, por ver quem brilha mais, quem tem a vida melhor, o carro melhor, a casa melhor. É me quase impossível pensar em viver para sempre rodeada por pessoas assim. Pessoas que não se ajudam, que só sabem julgar, que só sabem criticar.

Por isso isolei-me.

Durante o último ano passei mais tempo sozinha do que acompanhada. Sozinha mesmo. Eu, comigo mesma. Na minha casa, na praia, na rua. Sempre sozinha. Por vezes isso magoa, principalmente nos dias em que existe algo bom para partilhar. É triste sim não ter com quem dividir as conquistas, não ter com quem partilhar a felicidade. Mas é ainda mais duro perceber que quando estás na merda não está lá ninguém. Dói, dói muito. Mata-te um bocadinho a cada vez que acontece. Mas é uma dor necessária. Porque é preciso que todos percebamos que só nos temos a nós. Só podemos confiar a 100% em nós. As nossas dores nunca serão totalmente entendidas pelos outros. As nossas conquistas nunca serão totalmente festejadas e sentidas pelos outros. É duro viver num mundo onde percebes que só te tens a ti. Onde não consegues confiar nas pessoas.

E não, não digo que não existam pessoas boas. Se assim fosse também eu não seria boa. E não sou o tempo todo. Também eu já falhei a alguém, tenho a certeza disso. Também eu já fui a dor de outra pessoa, a desilusão de outra pessoa. Mas gosto de pensar que vivo a minha vida de forma a ser essa pessoa o menor número possível de vezes.

Tu podes destruir-te a ti próprio se pensares demais neste assunto. Porque somos seres sociáveis e precisamos dos outros para socializar. Mas é triste ver naquilo em que o mundo se tornou. E a culpa é nossa. Só nossa. Nós que cá estamos é que permitimos que as coisas chegassem a este ponto. Pessoas que usam outras pessoas. Amigos que não o são de verdade. Amores que não duram mais do que o tempo de validade de um iogurte. Família que se magoa por migalhas. Colegas de trabalho que se chateiam por ver quem faz o melhor papel.

Competição não saudável. Em tudo. Medir forças em tudo.

Porque não medir forças para ver quem ama mais? Porque não medir forças para ver quem ajuda mais, quem se entrega mais, quem se apoia mais? Porquê medir forças apenas por coisas que não têm interesse? Não tenho ilusão de que possa mudar o mundo e transformá-lo num mundo cor de rosa e cheio de unicórnios. Mas recuso-me. Recuso-me a entrar nessa luta de quem tem mais e melhor, de quem faz mais e melhor. E por isso isolo-me. Porque é a melhor forma de não ter que lutar com ninguém.

Deixem-me estar. Deixem-me ficar aqui sossegada no meu desassossego interno.

Pelo menos aqui a minha competição é apenas comigo mesma.

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