Uma Memória Feliz
(Desafio 30 dias de escrita)
Primeiro ouço-os falar. Volto a adormecer. Quero acordar porque me parece que eles já estão na cozinha. Caramba, ainda agora os ouvi sussurrar no quarto em frente. O sono volta a ser mais forte e volto a adormecer. Acordo novamente. Quanto tempo passou? Trinta segundos, um minuto, uma hora?! Sobressalto-me ao pensar que posso ter perdido o meu momento preferido do dia. A cama está tão quentinha, quase a oiço dizer-me que fique mais um pouco. Mas não. Nem pensar que perco o melhor do dia. Fico à escuta, sustenho a respiração, só para ter a certeza que escuto bem. Sim ouvi o barulho dos talheres. Eles ainda lá estão. Sustenho só mais um pedacinho a respiração, já me parece que vou desmaiar se não respiro. Mas ouço. Ouço a porta do quintal a abrir e, passado uns segundos, as brasas a cair na braseira da mesa redonda da cozinha dos avós. Volto a respirar. Salto da cama e sinto um arrepio assim que piso o chão. Está um frio de rachar, é fim-de-semana e eu devia estar sossegada na cama. Mas não posso. Não quero. Saio do quarto pé ante pé, não quero fazer barulho. A meio do corredor já me chega o cheirinho do café acabado de fazer na “esculateira”, como a avó lhe chama. Quero chegar de surpresa porque adoro surpreender os avós. Quase deixo sair um risinho quando me vem à mente a reacção que sei que a avó vai ter. Sim, a avó vai dizer: “Ai!” e vai contrair o corpo com o susto. Mas o avô não. O avô nunca se assusta. O avô olha-me na soleira da porta, é sempre ele que me vê primeiro, abre um sorriso e diz: “Olaaa, olha a nossa menina!”. Corro para o avô que me dá um abraço, e já sinto o arrepio que o bigode dele me vai provocar antes mesmo dele me depositar um beijo na bochecha. Deixo-me estar no abraço do avô uns segundos. Mas sei que poderia lá ficar durante horas. Sento-me e puxo a saia da mesa para as pernas. O calor das brasas chega-me ainda antes de as tapar. Na mesa está o mesmo de sempre. O pão, os papo-secos, a manteiga, os queijos, e claro os bolos do cozido e as costas. A avó pergunta-me o que quero comer. Mas ela já sabe, e nesse momento já está à minha frente a caneca de café com leite. O avô já abriu o papo-seco com a navalha dele. Passa-me o papo-seco para eu rechear com o que quiser. E de repente lá estamos os três “à roda” da mesa. Os meus avós a falar do que vão fazer durante o dia, e eu a olhar para eles. Não sei dizer se naquele momento o olhar seria de amor, admiração, carinho, ou que sentimento seja que uma criança pode sentir pelos avós. Mas sei hoje, que já sabia naquela altura que fosse qual fosse o sentimento, seria eterno.
Ainda é!
