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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

31
Out19

Uma experiência triste

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Entrar na sua casa com medo já lhe tinha acontecido muitas vezes. Mas digam a uma miúda de 16 anos, que tem que entrar na sua casa pela última vez, e ser rápida a escolher o que precisa trazer e vejam a reacção dela. Se olharem atentamente, confusão é a primeira coisa que lhe vão ver passar pelo olhar. Depois tristeza. E no fim, raiva. Muita raiva. Não fizera nada de errado. Porque é que aquilo estava a acontecer? Pensava enquanto entrava no seu quarto. Ao entrar dá-se conta que não tem a menor ideia do que poderão ser “bens essenciais” como o polícia lhe disse há pouco. Calcula que ele se esteja a referir a roupa, e talvez os materiais da escola. A mãe entrega-lhe um saco do lixo, daqueles pretos enormes. Mais uma vez ocorre-lhe o quanto é injusta aquela situação. Porque raio é que tinha que meter as suas coisas num saco do lixo? A raiva enche-lhe os olhos de lágrimas. Mas sabe que tem que ser rápida, por isso mais vale começar. Mas por onde? Roupa. Material escolar. Brincos, colares e esse tipo de acessório. Livros, CLARO. Não vai deixar nem um dos seus livros nas prateleiras. Cd’s. Dá-se conta da quantidade de cd’s que tem. Será que levo todos? – pensa em quanto percorre com os olhos os mais de quarenta cd’s que tem na prateleira. Decide-se por levar apenas os que tem ouvido mais. O saco já está cheio. Está prestes a sair do quarto para pedir mais sacos à mãe quando repara que ela lhe deixou um rolo deles na soleira da porta. As lágrimas vêm-lhe aos olhos. – É claro que a mãe sabe que um saco nunca me iria chegar - pensa com carinho. Despeja gaveta após gaveta. Limpa o conteúdo de cada prateleira, disposta a não deixar nada para trás. Mas deixa. Deixa os sonhos. Deixa a inocência. Deixa o sítio onde ela achava que estava segura. O sítio onde ela passou a maior parte dos seus dias, o seu porto de abrigo. A mãe vem chamá-la. Está na hora de ir embora. Ela resmunga que foi rápido demais, e a mãe diz-lhe que estão ali há quase uma hora. Têm mesmo que ir. Uma hora? Não deu conta do tempo passar. Pensa ela, para logo de seguida outro pensamento lhe surgir: mais de dez anos naquela casa, a vida que ela conhecia, e uma hora é o tempo que lhe dão para se despedir? Olha à sua volta mais uma vez. As paredes do quarto de dois tons de rosa por ela escolhidos, os detalhes da cama pintados à mão, por ela, da cor da parede. As estrelas e a lua coladas no teto brilhavam no escuro. Neste ponto bebe as lágrimas. Não contém um soluço e lembra-se de repente que tem que ser forte. Pela mãe. Foi a mãe que sofreu a maior parte da violência. É à mãe que isto está a custar mais. Não pode chorar. Sai do seu quarto e fecha a porta. Lá dentro ficaram os sonhos.

Tem dezasseis anos e sabe, instantaneamente, ao sair para rua que esta será lembrada por ela como a experiência mais triste da sua vida.

30
Out19

Um Rito de Passagem

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

A primeira vez que pisa aquele chão não possui grandes expectativas. Estava a iniciar a vida numa cidade diferente e não tinha qualquer ilusão de que iria ser fácil. Logo que entra dá-se conta que, muito provavelmente, lhe vai ser impossível alugar aquele apartamento. Não porque seja grande ou luxuoso. Mas porque está completamente mobilado e, à primeira vista, feito com algum cuidado. Enquanto passa os olhos pelas, poucas, divisões ouve a proprietária da casa dizer-lhe que é uma pena que tenha vindo de noite pois da janela da sala consegue avistar-se o mar. – Pronto, mais vale sair sem ver mais nada, ainda por cima estava a gostar – pensa de forma triste. Passada a visita à casa pergunta o valor da mensalidade. Fica, incrivelmente, feliz quando chegam a um acordo sobre o valor. Valor esse que ela pode pagar. A felicidade que se apodera dela é tanta que nem sabe como reagir. É oficial. Vai viver sozinha. Dá-se o rito de passagem para a vida autónoma. Hoje ao lembrar-se desse momento sabe que foi um dos melhores da vida dela. Aquela sensação de ter conquistado algo. De tê-lo feito sem ajuda. Sempre foi muito independente. Caramba, por vezes é até demais, negando ajuda mesmo quando sabe que precisa. Sentada na varanda da sala a olhar o mar pensa em como há momentos que nos marcam para sempre. Que se colam à nossa memória de tal forma que podemos estar a fazer qualquer coisa totalmente aleatória e eles surgirem do nada. Sentiu, naquela noite quente de Julho, que essa seria a melhor decisão que tomaria na vida.

Mal sabia ela a repercussão que essa decisão iria ter na sua vida, e como iria alterar o rumo da mesma.

29
Out19

Uma Música Favorita

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Entramos no carro e a primeira coisa que faço, após ele rodar a chave na ignição, é ligar a música. Tenho uma pen no carro com mais de mil músicas. Sim, nunca as ouvi todas, tenho a certeza disso. Essa, bendita, pen salta do meu carro para o dele consoante o carro que escolhemos para sair. – Vou meter a minha música – digo, mais para mim que para ele. Ouve-se Sia - Fire Meet Gasoline a sair das colunas. Ele olha para mim com a confusão estampada no rosto. – Mas ontem não disseste que a tua música preferida era Calema - Vai? – diz ele admirado. – Sim e é – digo como se fosse a verdade mais absoluta do mundo. Ele parece confuso mas não diz nada.

Num outro dia qualquer vamos no carro e eu, mais uma vez, digo que vou meter a “minha música”. Ele não parece dar importância até ouvir Metallica - The Unforgiven a bombar nas colunas. Baixa o rádio e diz: - Porra, a tua música não era um pouco mais calminha ontem? – os olhos escancarados e o tom quando diz “ a tua música” denunciam a sua admiração. – Ok, vou mudar. – digo enquanto procuro a “minha” música. Hungria - Um pedido começa a tocar, olho-o e ele parece-me mais aliviado por ser algo mais calmo. Olha para mim como quem aceita e continuamos a viagem.

Vamos ao Alentejo ver a minha família. Como sempre sou eu a Dj. Escolho a “minha” música. Banza - Minha Terra, meu encanto .Ele olha para mim e ri. – Sério? – pergunta a sorrir. – É para entrarmos no espírito, vá lá – digo não conseguindo evitar a gargalhada. Cante alentejano não é música que ele me julgue capaz de ouvir no carro. Mas eu sou alentejana não é? Alentejana que se preze tem cante alentejano nas suas playlists. Ele não reclama e continuamos a viagem. Não ouço a próxima música daquela pasta. Nuca ouço mais que uma música de cada pasta. Fazer o quê? Tenho muito por onde escolher não é?  Creedence Clearwater Revival: Have You Ever Seen The Rain? toca agora. Ele ri-se e eu começo a abanar os ombros como quem dança. Não tarda e ele vai estar a bater com os dedos no volante. Trinta segundos? Cá está. Ninguém resiste. – Esta também é a tua música? – pergunta ele. – Claro que sim - respondo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Nunca conheci ninguém que tivesse tanta “minha música” e de géneros tão diferentes – diz colocando a expressão “minha música” entre aspas usando os dedos.

Este post podia nunca mais acabar. Desde muito pequena que a música é a minha companhia. Gosto de música. Um pouco de tudo. Ouço música em todo o lado. Principalmente no carro e em casa a música nunca está desligada.

Não saberia escolher uma música favorita. Porque elas mudam todos os dias. Depende do estado de espírito, sabem?

Não posso deixar de falar aqui num dos meus tios. Cresci sem pai. O que me levou a ter várias figuras masculinas da família como pai. Sendo que um deles foi um dos meus tios que é, e sempre foi, louco por música. Confesso que, muito por influência dele, as minhas músicas favoritas estão entre os hits dos anos 80, 90. Gosto de todo o tipo de música mas se há música que me enche de emoção é a música dessas épocas.

Mas como já referi gosto de tudo um pouco. Assim sendo, não me vou alongar, mas vou deixar algumas daquelas que nunca me deixam indiferente. Parece que me tocam no mais profundo da alma, aquecem-me o coração, e, admito, arrancam-me algumas lágrimas embora não saiba dizer o porquê.

Rainbow - Catch the Rainbow

Eric Clapton - Tears in Heaven

Brian Adams - (Everything I Do) I Do It For You

Patrick Swayze - She's Like The Wind

Kaoma - Lambada

Sia - Loved Me Back To Life

Eric Carmen - Hungry Eyes

Pink Floyd - Wish you Were Here

Linkin Park - In The End

Sarah McLchlan - In The Arms Of an Angel

Vaults - One Last Night

Coldplay - The Scientist

Bryan Adams - Heaven

Il Divo - Hasta Mi Final

Robbie Williams - Angels

 

28
Out19

Um Sonho Recorrente

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Ela deve ter uns treze ou catorze anos. Talvez mais. Está naquele momento da adolescência em que começam as primeiras paixonetas. Ainda não tem um namorado, embora algumas amiguinhas já tenham. Ela não tem até porque, mesmo que quisesse, sabe que o marido da sua mãe nunca iria aceitar. Mas ela também não quer. Ainda acha cedo, caramba, ela ainda brinca com as Barbies acompanhada da sua irmã mais nova. Sabe que não tem nem quer ter um namorado ainda. Mas mesmo assim acorda a sentir-se mal. Uma sensação de perda. Dor. Sente-se ridicularizada. Como se alguém estivesse a gozar com ela ainda agora. Ah o sonho - Lembra-se. Sonhou mais uma vez que aquele rapaz que ela acha muito giro e que a faz rir a toda a hora era seu namorado. E isso podia ser bom, não fosse o facto de ela sonhar, constantemente, que ele a estava a trair. Enfim, coisas de adolescente.

Tem agora 18 anos e já não brinca com as barbies. Agora já trabalha. Já entrou na vida adulta (ela gosta de pensar que sim!). Já tem um namorado. Uma coisa séria. Já namora com ele há uns dois anos. Foi o seu primeiro namorado e ela tem a certeza que será o último. Mesmo assim, acorda banhada em suor. E em lágrimas. Uma sensação de não saber bem o que se passou. Não consegue encontrar explicação para estar a chorar daquela forma. Não passam, sequer, dez segundos e ela já percebeu o que a fez ficar naquele estado. Mais uma vez. O mesmo sonho. Anos e anos a sonhar a mesma coisa. Ainda não namorava com ele e já sonhava que ele a traía. Acorda e vai ver as últimas mensagens de texto que tem no telemóvel. No sonho ele acabou de enviar uma mensagem a dizer que acabou tudo entre eles. Ela vai confirmar, embora lhe pareça que está tudo como ela deixou antes de adormecer. Mas é melhor confirmar. Sim, há uma mensagem dele, mas diz: “Boa noite amor. Sonha comigo e já sabes que te amo mt mt mt mt mt…” não chega a ler todos os “mt” que lá estão. Ok. Está tudo bem. Mas devia ler sobre o significado dos sonhos, embora não saiba bem se acredita nisso.

Já está numa relação séria com ele há mais de sete anos. Tem 23 anos e já não trocam mensagens fofinhas com infinitos “mt” a seguir ao amo-te. Ele dorme ao lado dela. Ela tem a certeza que foi só um sonho. Mais uma vez. Ele estava a traí-la com uma rapariga com quem andou junto na escola. Riram-se dela quando ela entrou no café (ela nem costumava ir a cafés, mas onde raio ia buscar estas ideias?). Ele olha-a e diz-lhe: “achas que ia namorar contigo para sempre? Nem o teu pai te quis, ia eu querer?” Ausch. Essa doeu. Volta à realidade. Olha para ele só para ter a certeza, mais uma vez, de que ele ainda lá está. Foi só um sonho. Só mais um sonho. Devia mesmo ver o que significa sonhar com isto – pensa ela pela milésima vez na vida.

Tem 28 anos e ainda acredita no amor. Há uns anos acabou a relação (de nove anos) que mantinha, afinal, o rapaz que ela achava que seria o seu primeiro e último namorado já não existe na vida dela. Depois disso achou que queria ficar sozinha para sempre. Mas não ficou. Cá está ela a acordar mais uma vez a meio da noite. Cara lavada em lágrimas, ranho a escorrer do nariz. Acorda aos soluços. Com o passar dos anos os sonhos tornaram-se mais reais. Ou ela acha que o seu loiro é “o tal” e por isso os sonhos magoam mais. Não sabe dizer. Mas sabe que está capaz de chorar até ao próximo dia. Senta-se na cama. Não pode ser – pensa ela. Este sonho acompanhou-a a vida toda. Desta vez ele e aquela amiga que ela julgava que era amiga e descobriu, à pouco tempo, que é apenas uma rapariga que gosta de a copiar. Tudo o que ela lhe diz que planeia fazer essa “amiga” faz logo de seguida. Esse tipo de amiga que já todos tiveram, pelo menos, uma vez na vida. Talvez por isso, hoje sonha que ela lhe roubou o namorado. Ela sabe que não é verdade. Sabe que é só um sonho. Mas não consegue parar de chorar. Soluça alto. Ele acorda. – Que se passa amor? – diz ele com a voz obstruída pelo sono enquanto a puxa para si. Foi só mais um sonho parvo – diz ela enquanto se aninha ao lado dele, ainda a chorar. Encosta a cabeça ao ombro dele. – Não chores, está bem? Vais ranhar-me o ombro todo! – diz ele com toda a naturalidade do mundo enquanto volta a adormecer. Ela ri-se e chora ainda mais. Ele aperta-a. Sabe que ele disse aquilo para a fazer rir. Ele sabe qual foi o conteúdo do sonho. Ela já lhe contou várias vezes sobre o seu sonho recorrente. O único que a leva a acordar entre soluços e lágrimas.

27
Out19

Um objecto quotidiano

(Desafio 30 dias de escrita)


V de Viver

Subo a persiana. Abro a porta. E saio para a varanda. E ela lá está. Sossegadinha e velhinha. Vivo nesta casa há quase quatro anos. Aos poucos fui renovando tudo o que precisava, substituindo coisas antigas por coisas novas. Só o essencial porque o dinheiro é pouco e a casa não é minha. Não fosse eu uma jovem adulta (aos 28 anos ainda me posso considerar assim, ou não?!) que começou do zero sem ajuda de ninguém. De todas as coisas que achei que devia substituir ao longo destes anos a que mais precisava de “ir para a reforma”, provavelmente, era a cadeira de plástico que tenho na varanda da sala. Mas cá está ela. Dou por mim a olha-la e a pensar:sim, este mês compro outra!

Mas não consigo desfazer-me do raio da cadeira!

Já foi testemunha de tantos silêncios. Tantas dores. Já presenciou tantas lágrimas. Já me suportou o peso enquanto lia, tantos livros, naquelas alturas do ano em que, nem estando demasiado frio nem demasiado calor, é agradável estar na varanda. Já me contemplou a rir até me doer a barriga. Já viu tantos festejos com amigos. Já foi a minha companhia em tantos pores-do-sol. Já nela bebi café. Também bebi vinho, sozinha, porque a minha companhia é tão boa como outra qualquer (às vezes até melhor). Já fiquei ali sentada, só eu e ela, a ver o mar tantas horas seguidas. Já agradeci tanto, por ter o que tenho, ser o que sou, sentada na minha cadeira velhinha.

É parvoíce não é? É só uma cadeira. Mas existem tantos objectos quotidianos que sendo, só, objectos as pessoas se apegam, digam-me lá porque não me posso apegar ao raio da cadeira?

Não quero levá-la para o lixo. Não vou levá-la até que seja, estritamente, necessário. Ou seja, não vou levá-la até ao dia em que ela se partir e eu ficar com o rabo no chão. Mesmo que doa. Também me vai doer desfazer-me dela, portanto…

Pronto, decisão tomada!

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