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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

28
Nov19

Balanço de 2019

O fim de um ciclo O primeiro dia nos 29!


V de Viver

Sempre fiz o balanço do ano perto do dia 31 de Dezembro. Penso que não serei a única. É quando se aproxima um novo ano que gostamos de olhar para trás e ver se cumprimos aquilo a que nos propusemos durante os fogos do reveillon. Contudo, este ano dei por mim a pensar que, para mim, faz sentido fazer esse balanço no dia do meu aniversário. Bem vistas as coisas é no dia do nosso aniversário que iniciamos um novo ano, não vos parece? Talvez seja só um devaneio meu. Mas este ano, pela primeira vez na vida, dou por mim a fazer essa análise um dia após o meu aniversário

Ontem entrei nos 29. E dou por mim a pensar que já conquistei muita coisa e que tenho outras tantas para conquistar. Sei que nunca vou estar satisfeita porque o ser humano é assim mesmo. Mas quando olho para o meu passado, para a minha história no geral e, em específico, para o ultimo ano, não consigo deixar de chorar.

O último ano foi o mais louco de todos na minha vida. Foi difícil, complexo, doloroso, exigente e longo, demasiado longo. Não sei sequer o que escrever sobre ele. 

Espero que os 29 me tragam clareza, sabedoria, inteligência e resiliência para lidar com a vida. Para lidar com as pessoas, e, sobretudo, para lidar comigo.

Perdi-me algures durante 2019. Foi preciso a vida obrigar-me a parar (sim, acredito que a forma estúpida como fiz a lesão no pé só pode ter sido a vida a arranjar forma de me parar!) para eu ver que não estava no caminho certo. Para eu ver que já não era eu. E, sim, é normal. Estamos em constante mudança. Mas nunca devemos aceitar mudar para algo que não nos agrada. A pessoa triste, irritada, mal-humorada, e, acima de tudo, resmungona que substituíu a pessoa alegre, bem disposta, brincalhona e simpática que eu era não me agradou nem um pedacinho. Existia dentro de mim uma luta constante para trazer à tona a rapariga que eu era e que senti que se afogava no meio de um onda de escuridão. Não me dediquei tempo, não me dediquei atenção. Vivi, completamente, em piloto automático e isso trouxe-me problemas graves. Estava a tornar-me uma pessoa insuportável, até para mim. Sobretudo para mim. Odiei-me de cada vez que dei por mim a  reclamar. Odeio pessoas reclamonas. Sempre segui o lema de: "Se não tem remédio, porque te queixas? Se tem remédio, porque te queixas?" E eu fui, durante o último ano, a pessoa que se queixava de tudo. Deixei-me levar por aquilo que achava que já devia ter. E esqueci-me de agradecer aquilo que já tenho. Foquei-me tanto, mas tanto, nos problemas que deixei de conseguir ter energia para arranjar soluções.

Não quero esquecer estes últimos doze meses porque sei, no fundo, que foi preciso chegar ao fundo do poço para tomar impulso e sair de lá. Foi um ano escuro. Muito escuro. Mas como já li algures: uma certa escuridão é necessária para ver as estrelas.

Sinto que desde que me lesionei, voltei a ser eu. Este retorno a mim não foi imediato. Não foi algo do género lesionei-me e já está, milagrosamente sou eu outra vez. Não. Nada disso. As primeiras duas semanas foram horriveis, tanto mais que, como se não bastasse tudo o resto, a minha avó faleceu. A minha avó que era como uma mãe para mim. (Mas isso fica para outro dia, outro post porque este já vai longo.) Tudo isto foi um balde de água fria. Mas um dia acordei e percebi que conseguia lidar com tudo isto. Que ainda havia uma forma de sair do fundo do poço. Tinha que haver.

E havia. Aqui estou eu outra vez. Renascida das cinzas qual fénix com vontade de viver. 

Feliz aniversário para mim, e que este ano me traga a paz interior que eu sempre aspirei alcançar. Pois quando estamos em paz, o resto tanto faz.

25
Nov19

Carta ao meu pai

O pai que nunca tive, o pai que nunca me quis


V de Viver

Olá pai! Gostava de te fazer algumas perguntas. 

De que cor são os teus olhos, pai? Qual é a cor do teu cabelo? És alto? És magro? Vives onde, pai? Tenho realmente duas irmãs como diz quem te conhece? É verdade que elas são enfermeiras, as duas? É verdade que vives numa casa muito grande e que tens um carro topo de gama? Os teus pais ainda são vivos, eu ainda tenho avós? Tenho muitos primos, pai? Vocês juntam-se sempre nos aniversários e no Natal, pai? A família é muito grande? 

Desculpa lá, pai. Mas tenho tantas, mas tantas perguntas.

Porque é que nunca me quiseste, pai? Porque é que abandonaste a mãe quando ela mais precisava de ti? Quando ela viu morrer o irmão mais novo tendo um bebé prestes a sair-lhe das entranhas. Seis dias, pai. Seis dias separaram a morte do irmão da mãe, do meu nascimento. E onde estavas tu, pai?

Porquê, pai? Porque é que me fizeste crescer e viver com a humilhação de ter um X no lugar do teu nome? Porque é que não quiseste sequer que eu tivesse o teu apelido? Namoravas a mãe há muito tempo quando ela ficou grávida, se fosse uma aventura de uma noite eu podia fingir que respeitava a tua decisão. Não respeitaria. Mas, pelo menos, poderia ir buscar algum consolo a esse facto. Mas esse facto não existe, pai. Vocês eram namorados. E tu escolheste abandoná-la.

Julgaste ser cedo, pai, ter essa designação aos vinte e sete anos? Então porque é que foste pai logo no ano seguinte? E outra vez logo a seguir. Duas filhas. Duas raparigas. Eu também sou rapariga, pai!

No que é que elas são melhores que eu, pai? Não tenho ciúmes, como poderia ter? Nunca te conheci. Tenho dúvidas, pai, e curiosidade. Porquê, pai? Porque é que elas tiveram direito a estudar na universidade, segundo fala quem te conhece. Porque é que elas tiveram o privilégio de formar-se em enfermagem, as duas? Porque é que elas tiveram direito a uma vida recheada e eu não, pai? Decidiste que elas seriam melhores que eu mesmo sem me conheceres?

Porque é que nunca enviaste um cêntimo à mãe, pai? Sabias que ela trabalhou muito, todos os dias, do nascer ao pôr do sol, para que eu conseguisse estudar? Não conseguiu pagar-me os estudos na universidade. Mas ficou, imensamente, feliz quando acabei o secundário sendo das melhores alunas da escola. Sim ela ficou muito orgulhosa. E sabes o que ela sentiu depois, pai? Quando não me conseguiu pagar os estudos na universidade? Quando me viu obrigada a trabalhar para ajudar? Não sabes pois não, pai? O que é olhares para a tua mãe e veres chispar nos olhos dela a desilusão de quem se esforçou para conseguir um futuro para a filha e não conseguiu, ainda assim, proporcionar-lho. Não sabes, pai. O que é veres a tua mãe dizer que não tem fome e saberes que o que ela está a fazer é a dar-te a comer a última refeição que tem em casa. Não sabes, pai.

Mas ainda tenho mais perguntas, pai. Uma vida inteira delas.

Porque é que nunca tiveste curiosidade em me conhecer? Sabes o que eu faço na vida, pai? Sabes onde cheguei? Provavelmente se soubesses ficarias feliz. Ficavas, pai? Ou tudo o que é relacionado comigo não te interessa mesmo? 

Porquê pai? Porque é que me obrigaste a crescer sem saber o que é chamar pai a alguém? Tiveste tantos anos para me procurar, pai. Sempre soubeste onde a mãe vivia. Sempre soubeste como era fácil encontrar-me naquele meio pequeno. Mas nunca quiseste, pai. 

Não sei o teu nome completo. Não sei a tua idade. Não sei a tua data de aniversário. Não sei sequer qual é o teu aspecto. Quem sabe se não nos cruzámos já alguma vez, pai? Talvez.

Sabes pai, estou quase a fazer vinte e nove anos. Sim, faço-os esta semana. E a idade trouxe-me maturidade. Mas a idade trouxe-me, sobretudo, sabedoria. Sabedoria para saber que algumas perguntas nunca vão ter uma resposta. Mas, mais importante que isso, a vida e a idade mostraram-me que por vezes tudo aquilo que nós mais queremos, deixa, um dia, de fazer sentido. Que as respostas que tanto almejavamos deixam de ser importantes. 

Sempre te quis, pai. Sempre quis que me quisesses, pai. 

Sonhei durante muitos anos que um dia tu chegarias ao pé de mim com uma resposta para cada uma das minhas perguntas. E até me atrevi, tamanha era a minha inocência, a pensar que, talvez, talvez essas respostas fizessem sentido. Talvez tu tivesses tido os teus motivos para nos abandonares. 

Sonhava que chegarias perto de mim, me abraçarias e me pedirias perdão, em lágrimas. Que as nossas lágrimas se juntariam formando um imenso mar salgado. Que choraríamos juntos por tudo o que nos foi tirado, por todos os anos de afastamento. Que me apresentarias, com orgulho, à tua família. Que eu passaria a fazer parte da tua vida.

Mas foste tu, não fostes, pai?

Foste tu que nos tiraste estes anos todos. Foste tu que não me quiseste. Foste tu que escolheste fingir que eu nunca existi. E és tu que continuas a fingir que eu não existo.

Mas sabes que mais, pai? 

Eu não te quero. Não quero saber o teu nome. Não quero saber quem és ou onde estás. Não quero fazer parte da tua família. Não quero, sequer, saber se estás morto ou vivo. Embora saiba que estás vivo porque há sempre alguém que faz questão de me lembrar.

Tu, paizinho, foste um cobarde.

E existem cobardes que se arrependem e voltam atrás. Emendam os seus erros. Remendam o passado agindo no presente. Mas tu não. Tu nunca o quiseste fazer. Foi mais fácil para ti fingires que eu não existia. 

Foste um cobarde, pai. 

Hoje posso afirmar, feliz, que não preciso de ti. Mas já precisei muito. Já me fizeste muita falta.

Mas não mais. 

Fecho este ano o ciclo durante o qual fui apenas uma menina à espera que o pai a amasse. À espera que o pai a quisesse, lhe desse carinho e amor. Uma menina que sentiu sempre que tinha feito alguma coisa errada. Que cresceu a pensar que se o pai não a queria ninguém a ia querer. Uma menina de olhar triste que sorria, chorando por dentro, sempre que via os primos a ter uma brincadeira com o pai. Os amigos com os pais nas festinhas da escola. Que se enchia de lágrimas ao ver uma filha com um pai fosse qual fosse a situação.

Essa menina deixou de existir hoje. Agora mesmo ao finalizar este texto.

Adeus, pai!

22
Nov19

Excertos que me tocaram a alma #3

Sobre finais felizes


V de Viver

"Não há finais felizes, reflectiu de si para si. Todos temos um sétimo selo para quebrar, um destino à nossa espera, um apocalipse no final da linha. Por mais êxitos que somemos, por mais triunfos que alcancemos, por mais conquistas que façamos, para a última estação está-nos sempre reservada derrota. Se tivermos a sorte e nos esforçarmos por isso, a vida até pode correr bem e ser uma incrível sucessão de momentos felizes, mas no fim, faça-se o que se fizer, tente-se o que se tentar, diga-se o que se disser, aguarda-nos sempre uma derrota, a mais final e absoluta de todas elas."

 

José Rodrigues dos Santos, O Sétimo Selo

21
Nov19

Uma Metáfora para a Vida

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Não deixa de ser engraçado que seja hoje, no último dia deste desafio de escrita em que decidi entrar, que tenho um completo bloqueio. É a primeira vez, desde que me propus a entrar no desafio, que não me ocorre o que escrever. Uma metáfora para a vida. Existem tantas metafóras para a vida. Gosto daquela que diz "A vida é como andar de bicicleta, é só manter-se em movimento". Podia pegar nela e desenvolver alguma coisa. Mas gostava de escrever algo que me saísse da alma, das entranhas. O que, admito, não será tarefa fácil, até porque é impossível saber se o que eu escrevo aqui não é também escrito por outra pessoa em qualquer outro lugar no mundo. E, além disso, para quem como eu, lê muito, acaba por ser difícil não escrever, mesmo que inconscientemente, algo que já leu algures. Mas enfim, já estou a divagar. Ora então uma metáfora para a vida. Assoma-se-me ao espiríto uma montanha russa. Tenho a certeza que já alguém fez esta comparação com a vida. Mas é verdade. A vida é mesmo como uma montanha russa. Ora estamos lá em cima. Felizes, afortunados, realizados. Satisfeitos com o nosso dia a dia, com a forma como conduzimos a nossa vida. Com o que já conquistámos. Onde já chegámos. Ou então, um dia, acordamos e estamos cá embaixo. Descemos a pique, sentindo aquele borbulhar no estomâgo de quando fazemos uma descida muito acentuada e veloz. Olhamos para nós e sentimos apenas desilusão. Fracasso. Derrota. Azar. Outros dias há, ainda, em que acordamos com a sensação de que estamos virados do avesso. Cabeça para baixo e pés para o ar. Uma total sensação de não sabermos o que andamos aqui a fazer. De não sabermos como chegámos onde estamos. Mas a vida não é, e não pode ser, só isto. Não. A vida é como o mar. Ora estamos cheios, ora estamos vazios. A vida é, também, como um livro. Uns capítulos são felizes, outros são tristes. Cada página escrita por nós. Cada linha uma atitude, uma ação que considerámos ser a mais certa. Cada letra a formar palavras que articulámos. A vida é uma série de histórias, e também de não histórias tendo em conta tudo aquilo que não foi, mas que poderia ter sido. É uma constante linha de equilibrio entre escolhas e consequências.  A vida pode ainda ser como andar de baloiço. Por vezes só conseguimos se nos derem um empurrãozito. É como uma flôr. Precisa de ser cuidada. Regada. A vida é tudo. A vida é o nosso maior milagre. A vida é um sorriso. É um carinho. É o amor. É a família. São as lágrimas. Os momentos que se cravam na nossa pele. A vida é a única coisa que temos. E é também a única coisa que sabemos que, um dia, acaba. Porque como disse Séneca: " Este é o único motivo pelo qual não nos podemos queixar da vida: ela não segura ninguém". 

20
Nov19

Um Beijo de Amor

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Existem vários tipos de amor. O amor apaixonado, aquele que causa borboletas no estômago. O amor sexual, carnal, aquele que nada mais é do que uma atração física. O amor de afeto , aquele que nos inunda o peito quando reunimos a família. O amor fraternal, leal que se pode dizer que é o que experenciamos nas amizades. O amor próprio, aquele que todos devemos cultivar dentro de nós, por e para nós. O amor platónico, aquele que todos (ou quase todos) tivémos em adolescentes, por exemplo, por um actor ou cantor, etc. O amor ao próximo, que nos permite ter empatia pelos outros. O amor aos animais, o amor aos bens materiais. O amor pela leitura, pela escrita, pela vida. Poderia falar de amor o resto da tarde, e até noite fora. Para mim, o amor pode significar uma coisa totalmente diferente do que poderá significar para vocês que me estão a ler. Não há definição para o amor. Mas penso que todos estamos em sintonia quando o assunto é o amor de mãe. Aquele que é o mais puro, mais autêntico, mais honesto, mais absoluto. O mais verdadeiro, mais fiel, real, palpável e incontestável. O mais obstinado, intrasigente e incansável. O amor mais duradouro, moroso, estável e eterno. Aquele que nunca, jamais, morre. Por esse motivo, quando vi o tema sobre o qual o desafio de escrita me pedia para escrever hoje, a primeira contemplação, a primeira coisa que se manifestou na minha mente foi um beijo da minha mãe. Porque é ali, naqueles lábios ternos, que eu sei que está o verdadeiro amor. O amor que nunca me irá abandonar. O amor que perdoa tudo. O amor que não apodreceu, não se desgastou, não se degradou quando, em adolescente, lhe respondia torto e lhe dizia que não estava certa. O único amor capaz de suportar tudo e ainda assim continuar ali, rijo, implacável, seguro, saudável, maciço, sempre pronto para mim. Um beijo de amor é o beijo da minha mãe.Os beijos que me despertaram enquanto criança e adolescente. Nunca fui acordada por um despertador, nunca. A minha mãe era o meu despertador. Os beijos da minha mãe acordavam-me todos os dias. Suaves, ternos, doces e afectuosos. Muitos não foram bafejados com essa sorte. Eu fui. Sei que muitos não tiveram essa chance, sei que existem aqueles a quem a vida não permitiu conhecer o sabor do carinho da mãe. Sei que fui uma afortunada. Nunca tive o amor de um pai. Nunca chamei pai a ninguém. Mas sempre tive, tenho e continuarei a ter, a certeza absoluta que a minha mãe fez o papel dela e o de pai. E fê-lo bem feito. Errou. Hoje, que sou adulta consigo ver os erros dela, mas consigo também entender que todos esses erros se deveram ao facto de achar que era o melhor para todos. Não lhe guardo rancor por nenhum desses erros. Pelo contrário. Se eu for, um dia, metade da mãe e mulher que é, e sempre foi, a minha mãe, serei feliz. Irei sentir-me realizada. A todas as mães que foram também pai, deixo aqui um grande beijinho de carinho e uma, enorme, salva de palmas por terem sido as lutadoras que foram. Saibam que tarde ou cedo, os filhos vão sempre reconhecer o vosso valor e perceber que vocês, mães, fizeram o melhor que conseguiam com aquilo que tinham. Por esse motivo, hoje, o meu beijo de amor vai para a minha mãe, e para todas as mães. 

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