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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

05 Dez, 2019

Um recado para mim

(Texto escrito a 10 de Outubro de 2019)

V de Viver

Só tu te podes encontrar. Só tu te podes ajudar. Deixa esse papel de coitadinha a quem a vida nunca ajudou muito. Nunca gostaste desse papel. Despe-o. Faz acontecer. Faz por ti. Encontra-te V. Esquece se o teu pai nunca te quis. Esquece se descobriste que, afinal, te incomoda não teres tido um pai.  Esquece, sabes porquê? Porque já não é possível emendar isso. Já cresceste sem essa figura. Já não podes voltar atrás. Esquece se ele não te ajudou, se não ajudou a tua mãe. Foi ele quem foi um filho da mãe. Tu não tiveste culpa. Esquece. É passado. Está lá atrás. Avança. Encontra-te. Tu estás algures aí dentro desse corpo que tu não gostas. Dentro do corpo que sempre quiseste mudar. E já agora, aceita-te! Sim, aceita-te tal como és. Aceita que já foste muito gorda e que é impossível ficares com o corpo de alguém que nunca lutou contra o excesso de peso. Mas não vejas isso com maus olhos. Não vejas isso como mais um infortúnio que a vida te concedeu. Afinal de contas tu tens um corpo. Não te falta nenhum orgão. És inteira e, de certa forma, saudável. Não, vê isso como aquilo que és. É assim e pronto. Aceita. Queres mudar? Muda! Foca-te nos teus objectivos e vai em frente. Sim. Tu sabes que consegues. Já conseguiste uma vez, não foi? Queres voltar a treinar? Volta. Foda-se, V. Sai desse buraco. Agora tens dores, mas talvez essas dores sirvam para veres que, afinal, não tinhas assim tantos motivos para reclamar da vida. E, raios V., tu reclamavas. Reclamavas muito, todos os dias do último ano. Acorda, V. Olha a tua volta, vê o que tens, vê onde chegaste. Dá valor a quem te ama, a quem te respeita. E os outros? Os outros manda foder! Se não são importantes para ti então a opinião deles também não pode pesar na tua vida. Olha para dentro, V. Olha para dentro e pergunta a ti mesma: o que queres? Sim, o que queres? O que te falta? Será que estás assim tão mal na vida? Olha à tua volta. Sim. Olha à tua volta mas vê, não olhes apenas. Já conquistaste muito. Não tens tudo porque não podes, ninguém pode ter tudo. Mas, foda-se, podes ser tudo! E és tudo. És suficiente, sim. És boa, sim. És fantástica, sim. Não podes ser melhor? Claro que podes. Mas o que és já é suficiente. Mas, sim claro, deves sempre procurar melhorar. Anda, sai desse poço. Sim, estás quase no topo, não voltes para baixo. Aguenta aí porque estás quase a ver a luz. Já consegues ver a luz não consegues, V? Mas habitua-te. Sim, habitua-te porque vais muitas vezes ver a escuridão. Vais muitas vezes acordar sem sol. Mas e então? A vida não é feita apenas de dias de sol. Também existem dias de chuva. Podes tê-los, e vais tê-los. Mas acredita que a maioria vão ser dias bons. E de uma vez por todas, V., aprende que a felicidade não é o destino. Não é um sítio. Não é um bem. A felicidade é o caminho, esse caminho que caminhas todos os dias. Esse caminho que pisas enquanto vais vivendo, enquanto os dias vão passando, enquanto a vida vai seguindo. Não é cliché, deves mesmo aproveitar todos os dias como se fossem o último. Sim, deves. E ama-te, V. Ama-te, foda-se!

V de Viver

O amor próprio é tão importante porque, no fundo, só nos temos a nós mesmos. As pessoas que amamos, e que temos a sorte que nos amem, podem estar connosco na maioria das vezes. Mas não vão estar sempre. Nunca ninguém vai estar sempre ao teu lado. Acredito que já ouviste várias vezes as expressões: "eu estou aqui para o que precisares" ou "vou estar sempre aqui para ti". É mentira. Ninguém está sempre lá para ti. Vão sempre existir momentos de solidão na tua vida. Alguns, vais agradecer por tê-los. Vais dar graças por teres aquele momento só para ti. Outros vão mostrar-te como a vida pode ser solitária. É bom, muito bom mesmo, tu apreciares a tua própria companhia. Mas vai sempre haver um momento, se não vários, na tua vida em que vais ficar sozinha mesmo não sendo isso que desejas. Em que vais precisar de alguém ao teu lado e esse alguém não vai estar lá. Vai quebrar aquele quinhão de promessas que te fez. E essa quebra pode dever-se aos mais variados motivos. E o mais simples de todos é, apenas, essa pessoa ter outras coisas para fazer. E aí vais pensar: "mas eu, ainda que tivesse outras coisas para fazer, deixava tudo de parte e juntava-me a essa pessoa se ela precisasse de mim". E é aí que começam os teus problemas. No facto de anulares as tuas vontades, de te anulares para correr para junto de quem precisa de ti. Porque um dia vais perceber, da pior forma, que na maioria das vezes, não é recíproco. Na maioria das vezes vais precisar de alguém, ou apenas desejar a sua companhia, e essa pessoa, a quem nunca falhas, não vai estar para aí virada. E é nesse momento que tu vês. Que olhas à tua volta e te dás conta de que não tens ninguém além de ti mesma. Percebes, finalmente, que a única pessoa que nunca te vai abandonar, que nunca te poderá abandonar, és tu própria. Porque no dia que tu te abandonares, no momento que tu largares a tua própria mão, nesse preciso momento, tu estarás perdida.

V de Viver

Estamos em constante mudança e acredito que isso faz parte do nosso crescimento enquanto seres humanos. Mas, no que me diz respeito, por vezes torna-se difícil lidar com as mudanças de humor e com as explosões que ainda não percebi de onde vêm.

Hoje dei por mim a fazer-me uma data de perguntas. Porque é que não agradeço todos os dias? Porque é que me foco, quando estou num dia menos bom, apenas naquilo que está mal e no que me falta? Porque é que tenho acessos de raiva e discuto de forma, pouquíssimo, assertiva com as pessoas que me são mais próximas? Porque é que, às vezes, acordo super bem disposta e depois alguma coisa sai do meu controlo e fico a sentir-me mal? Fico a sentir-me uma falhada. Deixo de conseguir focar-me naquilo que tenho, naquilo que sou, e passo a focar a minha atenção em tudo o que não tenho e não sou.

Há dias de sol e há dias de chuva, e gosto de pensar que o mesmo acontece connosco, seres humanos. Uns dias somos de sol, outros de chuva. Mas quero ter força, foco e clareza necessários, todos os dias, para ver que tudo isso faz parte. Que nem todos os dias têm que ser de sol até porque para florir é necessário chuva. 

Mas por vezes é-me tão dificil lidar com as palavras e atitudes das pessoas mais próximas que me deixo levar pelos sentimentos. Pelos negativos o que é ainda mais grave. Sinto que estou em constante luta para sair do fundo do poço. Em constante luta para me sentir uma pessoa melhor. Porque no fundo é isso que eu quero, sabem? Ser uma pessoa melhor. Sei o que me falta nesses momentos em que me deixo levar. Falta-me clareza. Quando consigo visualizar tudo à minha volta com clareza sei e percebo que tenho muito mais a agradecer do que a reclamar. Mas nem sempre consigo manter essa clareza. Se me focar. Se tiver atenção e pensar com clareza chego à conclusão que os outros são exteriores a mim, por muito que os ame. O seu caminho, a sua história são diferentes. E eles vão sempre agir de acordo com as suas experiências e não com as minhas. 

Mas sei que, no fundo, tudo se resume a mim. Sei que só me posso mudar a mim. Sei que tenho o poder de escolher como reagir às mais variadissimas situações da vida. Mas porque é que nem sempre tenho a clareza suficiente para o fazer?

Hoje acordei assim. Com milhares de perguntas tal qual uma criança na idade dos "porquês".

E em jeito de conclusão ocorrem-me mais perguntas: será que só a mim isto acontece? Só eu terei dificuldade em manter sempre a atenção e em conseguir sempre pensar com clareza?

 

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