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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

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27 Mai, 2020

As luzes da cidade

V de Viver

As luzes brilham lá fora. A rua calma indica que o fim do dia se aproxima. Escurece, lá fora e dentro de mim. Nostalgia de fim de dia, todos os dias, desde sempre. Lusco-fusco que me preenche a alma e a memória. Risos, grilos, passáros, estrelas, céu, família, amor. Sempre e para sempre, para mim, o fim do dia será o culminar da felicidade e da saudade. A nostalgia escorre-me pelos olhos. No estômago um vazio. No peito um buraco em ferida. Saudades que me corroem a alma. Dores que nunca terão cura. Pessoas que partiram e das quais, jamais, deixarei de ter saudades. Avós. Sinónimo de amor, vida, cuidado, carinho, alegria. Sinónimo de tudo o que de melhor e mais feliz tive na minha vida. Olho, agora, as luzes da cidade que cintilam como pirilampos. Há algo na iluminação noturna da cidade que me faz recordar o Natal. E há, sempre houve, e tenho a certeza que sempre haverá, algo no final do dia que me faz chorar. Saudades. Gostava de vos falar do que significa para mim um final de dia de verão. Mas não tenho palavras para descrever. Afloram-me à memória risos de crianças felizes. Vozes de adultos a chamá-los, insistentemente, para a mesa. Risos. Felicidade e contos ao jantar. Silêncios pedidos pelo avô para poder ouvir as notícias na televisão. Susurros de crianças que não conseguem parar de falar embora queiram respeitar o pedido do avô. Baralhos de cartas depois do jantar. Pés descalços. Noites estreladas. O fresco ansiado da noite. Cadeiras dispostas na rua ou no quintal. Cabeças viradas para o céu. Olhos atentos nas estrelas. O avô a dizer-nos os nomes das constelações. A prever o tempo do dia seguinte. Saudades. Imensas saudades de tempos que jamais voltarão mas que continuam tão presentes na minha alma, na minha mente, no meu coração. Desconhecíamos que seriam aquelas noites, aqueles risos, aqueles contos, aqueles momentos, os mais felizes das nossas vidas. Aqueles que levaríamos a vida toda a recordar através de um cheiro, do cantar de um grilo, de uma brisa ou das luzes dos candeeiros da rua, como que por magia. Aqueles que nos assomariam à memória nos momentos menos oportunos, trazendo com eles lágrimas de saudade que preferiamos guardar lá dentro. Penso agora, mas não pela primeira vez, que erámos felizes e não sabíamos.