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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

15 Jan, 2021

Circulo Fechado

V de Viver

Já alguma vez sentiram o fim de um ciclo dentro de vocês? Uma sensação de paz, de que uma ponta se uniu à outra, o início unindo-se ao fim. Uma sensação, quase física, de que algo se fechou realmente. Já foram surpreendidos por essa experiência?

Hoje, depois da minha corridinha, decidi dar uma caminhada pela praia. Quase todos os dias o faço, mas hoje, provavelmente por estar um sol fantástico e uma temperatura agradável, apeteceu-me descalçar as sapatilhas e sentir a areia nos pés. E foi aqui, na minha praia, ouvindo a melodia do mar juntamente com a voz da Giulia Be que tocava nos meus fones. Foi aqui, a sentir a areia fria nos pés nus, a recolher conchas e a ver no horizonte o céu a unir-se ao mar. Foi aqui que senti algo a mudar dentro de mim. Algo a chegar ao fim. Algo a desenhar um círculo fechado. A transmitir-me a mensagem de que chegou ao fim mais um ciclo. De que está na hora de deixar para trás o passado. De que está na hora de abandonar a ilusão de que algo voltará a ser o que já foi. Porque nada volta a ser o que já foi. Porque a vida é feita de escolhas, de ciclos que se fecham e de outros que se abrem. Porque nós estamos em constante mudança e, claramente, não somos hoje a mesma pessoa que fomos ontem. Foi aqui, num dos meus sítios preferidos, que percebi que está na hora de seguir. Sim, a vida continuou a seguir todos os dias, mas refiro-me a seguir mesmo. A abandonar o que não foi e eu queria que tivesse sido. A deixar para trás o que não me serviu. A secar as lágrimas, levantar-me, passar as mãos nos joelhos esfolados pela queda, erguer a cabeça e seguir. Seguir de verdade. Seguir a minha vida, renovar os sonhos, viver um dia de cada vez. Mas faze-lo de coração leve. Em paz. Com a certeza de que fiz tudo o que poderia ter feito, de que dei o meu melhor, de que amei com cada partícula do meu corpo. Enquanto escrevo estas palavras sigo ainda na areia húmida e fresca. Em paz. Com a certeza de que o que aconteceu foi, exatamente, o que deveria ter acontecido. Assim como o que não aconteceu não era, certamente, para ter acontecido.

14 Jan, 2021

Fugaz

V de Viver

Devagar, devagarinho. Um dia de cada vez, um momento de cada vez, percebes que a vida, afinal, sabe mesmo o que faz. Que ela sabe mesmo o que é o melhor para ti. Nunca, no momento em que passamos pela dor, seja ela qual for, conseguimos perceber que a vida está a levar-nos onde precisamos. Que a vida está a ensinar-nos algo, a tornar-nos em pessoas melhores, mais fortes e mais capazes.

Hoje, num fugaz momento, tive a certeza que a vida sabe o que faz. Aqui, sentada no meu sofá, coberta por mantas quentinhas que me protegem do frio, de dentro e de fora, com um livro nas mãos, a apreciar a limpeza que acabei de fazer na minha casa, tive a certeza de que estou, exatamente, onde devia estar. Voltei a ter a sensação de que nada me falta. É aqui que sou feliz. É na solidão que me encontro. É desta paz que preciso, deste sossego. Nada nos pode fazer melhor e pior do que nós mesmos. Nada pode ser a causa ou a cura de tudo tão bem quanto os nossos pensamentos. 

Ainda assim tenho a certeza de que, embora neste breve momento tenha sido presenteada por esta sensação de que está tudo certo, de que tudo está no devido lugar, ainda terei muitos momentos em que vou estar triste. Ainda vou dar por mim, muitas vezes, a pensar em tudo o que poderia ter sido diferente, em tudo o que me falta, em tudo o que sonhei que seria de outra forma. Mas espero, com todo o meu coração, que nesses momentos de guerra comigo mesma, eu tenha a capacidade de perceber que nada dura para sempre. Nem a dor, nem a felicidade, nem o amor, nem a vida. 

10 Jan, 2021

Genuína Solidão

V de Viver

Dez.

Passaram dez dias desde o inicio do novo ano. E eu já li três livros, num total de, aproximadamente, 1640 páginas!

Adoro ler. Nunca escondi isso, nem de mim, nem dos outros. Mas não consigo deixar de pensar que, neste momento, estou a usar a leitura como evasão. Como um meio de escapar a toda a dor que vive dentro do meu peito. Como uma forma de viver vidas que não sejam a minha. Como meio de fuga a tudo o que está errado.

É fácil perdermos-nos. É difícil voltar a encontrar quem éramos.

Será que quando nos voltamos a encarar, somos realmente os mesmos? Serei a mesma pessoa que era na última vez que olhei para dentro?

A solidão continua a fazer-me companhia, assim como as palavras dos mais variados escritores. Chego até a pensar que, quem inventou os livros, devia ser um ser solitário. 

O prazer da leitura é algo difícil de igualar. Acredito que só quem ama ler poderá encontrar sentido nas minhas palavras. Mas ler, realmente, transporta-nos para outros mundos. Faz-nos sonhar muito além do que imaginámos ser humanamente possível. Poucas coisas no mundo me fazem viajar como um bom livro. Aquela sensação de nos colocarmos, exatamente, onde e como o escritor descreve, o viver intensamente a história das personagens, o desejar o melhor para eles e, muitas vezes, desejar sê-los. 

Durante muito tempo questionei-me se seremos seres solitários. Vivi com essa dúvida porque sei que, no fundo, o ser humano é um ser social. Contudo, hoje mais do que nunca, tenho a certeza de que somos, sim, seres solitários. Nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Pelo meio vivemos pequenas, mas intensas, ilusões de que alguém nos pertence e de que pertencemos a alguém. De que temos alguma coisa nossa. Mas a única coisa que possuímos, realmente, é nós mesmos. 

E, mesmo cientes disso, fugimos de nós. Por vezes durante a vida toda. Fugimos da dor, do que ela nos faz sentir. Fugimos de nós como quem foge da morte, sem nos darmos conta de que fugir de nós é também uma forma de morrer. Lentamente. 

Talvez o que todos precisemos seja solidão. Aprender a lidar com ela. Aprender a lidar connosco. Afinal de contas, tudo o que nos resta somos nós mesmos.