Um momento de coragem
(Desafio 30 dias de escrita)
Ela sabia que precisava. Sabia que não havia outro caminho a seguir que não aquele. Mas tinha medo. O medo tinha-a levado àquilo que ela via agora prostrada diante do espelho. Tinha 23 anos e pesava 120kg. Odiava-se. Mas era covarde e não fazia o que sabia que tinha que fazer. Todos os dias quando acordava pensava que tinha que tomar uma decisão. A decisão. Sabia porque estava naquele estado. Não era só por comer compulsivamente. Era também porque não se mexia. Tinha vergonha. Tinha medo de ser ridicularizada. Sempre tinha sido a “gordinha” da turma. Aquela a quem, constantemente, diziam: “Opa tens uma cara tão gira, devias emagrecer um pedacinho, ficavas top!”. Só ela sabia como essas palavras a destruíam. Não. Não podia mais viver assim. Tinha que ganhar coragem, sair de casa e ir até lá. Ela queria. Mas tinha medo. Vestiu umas leggings pois era tudo o que conseguia encontrar para vestir da cintura para baixo. Ou, pelo menos, era tudo o que conseguia vestir sem que se sentisse uma anedota. Enfiou a t-shirt mais larga que tinha, preta como as leggings. Sempre lhe tinham dito que o preto “disfarça”. Ultimamente só usava roupa preta. Calçou as sapatilhas, e com alguma dificuldade enlaçou os cordões. E saiu. Ao chegar ao fim da rua o suor escorria-lhe pelas costas, pela cara e por entre os peitos. Não podia dizer se era do cansaço ou se era do medo. Talvez pelos dois. A porta que ela tinha que atravessar não ficava muito longe da casa dela. Após alguns minutos chegou. Estava diante da porta e teria voltado as costas não fosse o caso de o rapaz a abrir naquele exacto momento. – Olá! – disse ele. – Olá, bom dia. – disse ela sem entusiasmo nenhum. Como se não bastasse o azar do caraças dele ter aberto o raio da porta, ainda por cima continuava a segurá-la para ela entrar. Entrou. Não tinha outro remédio. Respirou e dirigiu-se ao balcão. Ele, que tinha acabado de voltar do exterior, disse-lhe: - Então, posso ajudar? Oh Meu Deus era agora. – Sim. – respondeu ela, a voz tremeu-lhe mais do que esperava. As palavras saíram-lhe quase cuspidas: - Eu quero inscrever-me no ginásio. Quero começar a treinar! – ufa! Saiu. - Será que ele percebeu? Será que falei depressa demais? Baixo demais? – Boa! – disse ele, até parecia feliz. – Sim, sim! Como se alguém se importasse contigo. – Pensou ela. E ele continuou: - Preparada para a avaliação? Podemos fazer agora se tu quiseres. Pânico. Não, não quero. Deus me livre que alguém soubesse o meu peso, a minha massa gorda, não, desculpa. Não, não sei onde tinha a cabeça. Adeus. – Sim! Pode ser! – ouviu-se dizer em voz alta. Ficou de tal maneira atónita por ter dito que sim, que o rapaz já estava a fazer-lhe sinal para entrar na sala da avaliação corporal há uns dois minutos quando ela se deu conta. Foi até ele, que lhe sorria como se o que ela tivesse acabado de fazer fosse a coisa mais fácil e mais normal do mundo. E, provavelmente, até era. Para os outros. Mas para ela foi o maior momento de coragem que tinha tido na vida até então. Afinal de contas a coragem é a acção apesar do medo. E acreditem, ela tinha muito medo do que os outros poderiam pensar. E, mais medo ainda, de falhar!
Não falhou.
