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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

14.01.20

Amo-te avó

Desculpa, avó

V de Viver

Avó

Você partiu há mais de três meses. Mas só hoje me permiti chorar todas as lágrimas que tinha guardado dentro do peito. O seu corpo partiu em Outubro. Mas você já não estava lá por inteiro há muito tempo.

Cuidou de mim como se fosse sua filha. Ou quem sabe como uma extensão do filho que perdeu seis dias antes de eu nascer. Vim dar-lhe força para continuar, mas só longos anos mais tarde tive essa percepção. Talvez fosse por isso que tinhamos uma ligação diferente. Talvez por isso muitas das minhas primas tivessem ciúmes por pensarem que você me amava mais a mim. Mas não acho que me amasse mais. Acho que me amava de uma forma diferente. Cresci consigo, e com o avô. Eram o meu amor diário, além do amor da mãe e das tias, claro. Mas foram vocês o meu pilar. O de todos nós, acredito.

Mas você avózinha. Você que me ralhava mas que me dava amor. Você que me deixava cozinhar com os tachos e panelas de plástico enquanto preparava o nosso almoço ou jantar. Você que não sabia ler nem escrever e que deixou, com uma paciência infinita, que eu tentasse ensinar-lhe, quando com a inocência da idade me achava professora. Você que me dava dinheiro às escondidas, me metia uma nota na mão e me lançava aquele olhar que me silenciava sem necessidade de palavras. Você, avó, que me dava beijinhos na cabeça. Que tantas vezes me limpou os joelhos esfolados de cair no quintal. Que tantas vezes me aconchegou na cama antes de ir deitar-se. Que cedo me começou a chamar "a minha mulherzinha velhinha". Que tantas vezes me preparou uma refeição diferente, só porque eu não queria o que vocês estavam a comer. Que me ensinou a gostar de cozinhar. Que prometeu ensinar-me a coser à máquina, não chegámos a ter oportunidade avó. Você, que eu vi durante dezassete anos, todos os dias sem execpção. Você com quem falei, nem que por chamada telefónica, diariamente até aos vinte e cinco anos. Como é que agora vou viver sem você, avó?  Com a certeza que não lhe ouço mais a voz, como?

Você que sofreu como ninguém. Que cresceu a passar fome, que com esforço, muito esforço criou seis filhos, ainda que Deus, nunca saberemos porquê, lhe tenha levado o seu tesouro, o seu único rapaz. Tanto sofrimento lhe vi nos olhos avó. Tantas lágrimas a vi chorar. Tanto a ouvi falar do tio que cresci a pensar que o tinha conhecido.

Se você soubesse avó, o vazio que me ficou no peito quando você partiu. Não apenas quando a vi pela última vez. Mas também quando deixei de a sentir ainda em vida. Se você soubesse avó, as lágrimas que chorei na primeira vez que avó não me reconheceu. Porquê avó? Porque é que você tinha que ter aquela doença? Que a fez ir embora ainda em vida, deixando só o seu corpo. Causando dor a quem a ama. A quem lhe chama avó, mãe, e a vê perdida em pensamentos, em acontecimentos de uma vida há muito passada. Maldita doença avó. Maldita doença que a levou de nós e nos deixou o seu corpo para que o vissemos a definhar. Para que sofressemos com o seu sofrimento. Maldita doença que nos obrigou a vê-la morrer duas vezes. Que nos obrigou a perde-la duas vezes.

Avó. Guardei estas lágrimas por uns meses porque não me sentia preparada para pensar em si. Peço-lhe desculpa por isso. Por não ter tido a coragem necessária para remexer nas nossas memórias. Mas a dor era maior que eu. Ainda é. Acho que até hoje não queria pensar que você já não estava lá. Que já não a podia ver mais. Fui cobarde por isso, porque preferi enganar o cerébro, deixando-o acreditar que você ainda estava lá, naquela cama onde tantas vezes a fui visitar.  

Mas obrigada avó. Nunca poderia pôr em palavras o quanto lhe sou grata. Você tinha o seu feitio, mas esse fica só para nós, porque sabe Deus que eu sempre disse que se devia ao facto de ter que viver com a maldição de ter perdido o seu filho.

Não consigo escrever tudo avó, não consigo escrever mais, porque os olhos estão tão inchados de chorar que mal consigo ver o que estou a fazer. Podia levar o resto do dia a escrever avó, e mesmo assim nunca conseguiria descrever o quanto eu a amei, o quanto eu a amo. A si, e ao avô. São as minhas estrelinhas no céu, que se juntaram à outra estrelinha que lá brilhava desde que eu nasci e ele se foi.

As vitórias deixaram de ter o mesmo gosto desde que vocês partiram, porque vocês já não estão cá para me aplaudir.

Fica um buraco no meu peito onde antes estavam vocês, e fica ainda, além do desgosto de não vos ter cá, outro desgosto que me acompanhará, também, para sempre: o de vocês não chegarem a conhecer os meus filhos quando os tiver. 

 

A saudade será eterna avó, mas o amor também.

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