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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

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Culpa

V de Viver, 13.08.21

Hoje venho falar-vos sobre culpa. Esse fardo pesado que nos acompanha ao longo de toda a vida. Quem nunca sentiu culpa? Quantas vezes por dia sentimos culpa? 

A culpa é tóxica e é inesgotável. Nunca deixamos de sentir culpa. No meu processo de cura e auto conhecimento sou convidada inúmeras vezes a olhar para dentro. A perceber o que sinto, de que forma o sinto e a deixar-me sentir. Sabendo que a culpa pode ser tanto consciente como inconsciente dou por mim a olhar para dentro e a procurar quando foi a primeira vez que senti culpa. Não é fácil voltar ao passado, ir fundo dentro de nós e procurar as nossas feridas causa muita dor. Mas é necessário. Hoje recolhi-me e procurei na minha criança interior quando terei sentido culpa pela primeira vez. E dou por mim a, mais uma vez, chegar ao mesmo sítio. À mesma pessoa. É como andar aos círculos, sabem? O meu pai. Mais uma vez o meu pai. Percebo agora que sempre me senti culpada por ele ter abandonado a minha mãe. Afinal de contas ele abandonou-a quando soube que ela me carregava dentro dela. Falar nisto leva-me a reagir. Reagir no sentido de querer gritar ao mundo (aos homens sobretudo, mas também a algumas mulheres) que nunca deviam abandonar os vossos filhos. Se soubessem o que isso causa numa criança e, posteriormente, na adulta em quem essa criança se torna, gosto de pensar que não o fariam. Mas enfim, não me é possível mudar o que já aconteceu. O que eu posso é perdoar. Pouco depois de criar o blogue escrevi sobre isso. Na altura achei, de verdade, que tinha perdoado o meu pai. Senti que o tinha perdoado. Mas precisava de ir muito mais fundo dentro de mim, conhecer-me melhor e ter a consciência que tenho agora de que o processo é muito longo e muito mais duro do que pensei. Sempre que olho para dentro, sempre que tento entender os meus sentimentos, as minhas emoções, a causa de determinadas atitudes que tive ao longo da vida, é a ele que chego. É à dor da rejeição que me acompanha desde pequena. 

A culpa corrói-nos. E sentir culpa por tudo o que de mau aconteceu na vida da minha mãe é muito duro. Sentimos ainda mais dor quando achamos que o erro foi nosso, que a culpa é nossa e que a culpa de sentirmos culpa é nossa também. 

Não sinto culpa apenas pelo que o meu pai fez. Esse é apenas o primeiro episódio que consigo ligar à sensação de culpa. Ao longo da vida a culpa acompanhou-me, como acredito que terá acompanhado cada um de vós. Afinal de contas todos somos humanos, todos erramos, todos sentimos dor. E é isso mesmo que devemos ter em mente quando sentimos culpa. Ter a certeza de que não somos especiais por isso, de que não somos apenas nós que nos sentimos assim. 

Se sentimos culpa é porque achamos que errámos, mas se errámos, com certeza evoluímos, aprendemos, e se cometemos erros é porque estávamos a tentar algo diferente, algo novo. Mesmo quem não tenta algo novo, quem não tenta ser mais, acaba por errar, porque só o facto de não tentar é por si só um erro. 

A vida é feita de erros e acertos. Às vezes acertamos, às vezes aprendemos. É preciso perdoar. Apenas perdoando os nossos erros conseguimos amenizar a culpa por tê-los cometido. Mas é preciso termos consciência de que nunca deixaremos de sentir culpa. A culpa irá sempre acompanhar-nos. Apenas temos que aprender a lidar com ela, aceitá-la, acolhê-la. É preciso olhar de frente para as nossas feridas. Dói, caramba se dói! Mas é necessário para o nosso crescimento.

Por isso vos digo: não tenham medo de sentir culpa. Não se sintam culpados por sentir culpa. E tenham sempre presente que a culpa nunca vai deixar de existir. Vez ou outra ela chega. Aprendam a aceitá-la como também eu estou a aprender. A vida é um constante processo de aprendizagem. E só aprendemos através do erro, mesmo que esses erros nos levem a sentir culpa. Somos seres falhos, mas somos também seres com uma enorme capacidade de aprendizagem e evolução. Que nunca percamos a esperença e a coragem para evoluir e nos tornarmos, cada vez mais, a pessoa que queremos ser. 

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