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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

15 Dez, 2020

Queda decadente

V de Viver

Estou a cair. Uma queda lenta e dolorosa. Vejo, como que em câmara lenta, o filme da minha vida a passar-me diante dos olhos. As lágrimas escorrem pelo meu rosto deixando os olhos turvos. Tento parar a queda. Tento evitar a escuridão que me espera lá em baixo, cada vez mais escuro, e mais e mais. Esforço-me para pensar em coisas felizes: penso na minha família, vejo o rosto da minha mãe e há uma luz que parece querer trespassar a escuridão. Mas logo vai embora. Tudo escuro, continua tudo escuro e continuo a cair. Não tenho onde me agarrar. Não quero mais continuar a descer mas não sei como parar esta queda. Música. Começo a cantar. A música sempre me fez companhia. Canto, e canto e consigo até ouvir a melodia ao longe. Mas ainda estou a descer. Mar. Imagino as ondas do mar a bater na areia, a espuma a formar-se e a dissipar-se junto às conchas. Escuridão, continuo rodeada de escuridão. Nem o sol, nem a música, nem o mar, nem sequer a família. Parece que nada me sustem, que nada me ampara a queda. Continuo a descer. Sei que há uma linha ténue entre mim e o abismo. Mas não sei como evitar cortá-la, como evitar passar para o lado de lá. Foi tudo. Foi o ano de merda que está quase no fim, foram todos os outros anos da minha vida em que andei a fingir que estava tudo bem. Foram todas as quedas que dei, todos os erros que cometi. Tudo isso me fez entrar nesta queda que parece não ter fim. Sempre fui grata, ou sempre gostei de pensar que era, não sei, não faz diferença agora. Porque tudo o que sinto é ingratidão. Pareço ter tudo e sinto-me como se não tivesse nada. Tenho trabalho, tenho familia, tenho um teto. Porquê? Porque me sinto como se não tivesse nada? Talvez aquilo que me falta não seja ter. Mas ser. Sei, no fundo do meu coração a resposta pulsa: é ser que te falta! Mas como posso ser se tudo o que quero é estar sozinha na escuridão. É chorar. É estar em paz, na minha paz vazia. Mas não é esta escuridão que eu quero, não esta em que me sinto numa montanha russa onde apenas existe descida. Não! Quero tanto sair daqui. Alguém me ouve? Alguém me vê? Ninguém. Sozinha. Estou sozinha como sempre estive. Mesmo rodeada de pessoas, sempre estive sozinha. Uso o riso para disfarçar a dor. Digo piadas, consigo rir de mim mesma, brinco e falo alto. A minha gargalhada estridente esconde tanta dor, ai se vocês soubessem. Tanto que quero calar as minhas dores e o tanto que uso o riso para isso. Mas não, já não está a funcionar. Já não é suficiente. Não quero mais fingir. Quero chorar. Quero gritar. Quero sair deste poço onde me encontro a cair esta queda decadente. Quero sorrir de verdade. Quero fechar este buraco que se me abriu no peito. Quero parar de entupir o buraco com comida. Alguém me ouve? Alguém me vê? Só quero parar de comer para suprimir o vazio. Não quero mais tentar fechar este vácuo com comida. Não quero mais estar triste. Como é possível eu saber que estou triste e não querer estar triste e ainda assim continuar triste? Como pode doer tanto algo que nem sei o que é? Feridas invisíveis são difíceis de curar. E quase impossíveis de explicar. É uma dor, sabem? Uma dor no peito, eu diria no coração, mas parece algo demasiado romântico, e a minha vida nada tem de romântica. É como um peso. Sim, como se um haltere de cinquenta quilos estivesse sobre o meu peito. E eu quero retira-lo. Mas os meus braços não têm força suficiente. Eu luto, puxo, empurro, mas ele não sai. Parece estar pregado ao meu peito com um milhão de pregos. Não tenho como retira-lo daqui. Sinto que preciso despir uma pele. Sim, é isso. Sinto que se despir esta pele talvez seja feliz. Talvez esteja em paz. Talvez este vazio deixe de doer. Mas como raio pode doer o vazio? Não quero sair. Trabalhar é um castigo, mas só às vezes, outras vezes é tudo o que tenho. Não quero correr, deixei de treinar e sinto-me mal por isso. Cá está ele, o efeito bola de neve: não me sinto bem, não treino, não treino e por isso não me sinto bem, e por isso não treino. E a bola vai rebolando, e rebolando. E a vida vai passando e passando. E não sei quando será o meu último dia. E sempre que penso nisto penso na minha mãe. Não quero, nunca, que ela sinta a dor de perder uma filha. Não posso morrer. Mas é isso que estou a fazer. A morrer enquanto ainda cá estou, enquanto ando pela rua, enquanto respiro, enquanto trabalho. A morrer lentamente, de olhos abertos a ver a vida passar. A deixar  apagar o meu brilho. A chorar a toda a hora. E porquê? Não sei, oxalá soubesse. Alguém me ouve? Alguém me vê? Não quero mais esta dor. Digam-me em que caixote do lixo posso coloca-la. Digam-me como posso despir esta pele sem brilho, como posso voltar a ser eu? Alguém me diz onde fiquei? Alguém sabe onde estou? Se me encontrarem tragam-me de volta, tenho saudades minhas. 

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