Solidão e um copo de vinho
Um copo de vinho branco na mão pode ser de uma enorme companhia. Sentada na varanda a ouvir música, bebo o vinho e engulo as lágrimas. Não estou triste. Estou reflexiva. Há dias assim, como hoje, em que acordei com as palavras a saltar da cabeça para as pontas dos dedos. Precisava escrever. Escrevi. Nem sempre digo coisas com sentido, mas é tudo muito sentido. Já disse isto hoje. O vinho está fresco, a noite agradável, a música é nostalgia. Mas não é sempre? Passa-me a vida em faixas pela mente. Como se um filme lá estivesse a correr. Erros e acertos. Lágrimas e sorrisos. Pessoas que me marcaram. Umas pelo bem outras pelo mal. Faz parte. Tudo serve para aprender. Bebo mais um gole de vinho e olho as luzes da cidade. Sinto-me privilegiada por ter esta vista sobre a cidade. E grata também. Penso, não pela primeira vez, que tenho um fascínio por varandas, por luzes da cidade e por vistas desafogadas. Será porque, por dentro, me sinto aprisionada? O vinho está fresco, mas queima-me a garganta ao descer, como se estivesse em chamas. Ele não está, e eu? Não me sinto sozinha, ou sinto? Penso nas pessoas que passaram na minha vida. Não deixa de ser curioso que eu pensasse que só teria um amor. Ah, quando somos adolescentes temos uma ideia tão deturpada da realidade da vida! Dou-me conta que podemos, sim, amar mais do que uma pessoa na vida. Refiro-me, como devem ter percebido, ao amor romântico. Sim, porque com certeza amamos muita gente na nossa vida, pessoas além desses amores substituíveis. Porque há amores que não o são, e aqui recordo os meus avós, a minha mãe, a minha irmã. Nunca ninguém poderia substituir esses amores. Mas os outros sim. Não sei se substituir será a palavra mais correta, acredito que cada pessoa pode ser guardada numa gaveta no nosso coração. Da mesma forma que acredito, cada vez mais, que temos lá muitas gavetas. Talvez nunca um amor substitua outro, mas quanto a isso não vos falo com certeza. Mas é após mais um gole de vinho que vos digo que podemos sim amar mais do que uma vez, daquela forma que nos faz aquecer o coração como o vinho me aquece agora a garganta. Há tempos disse que não acredito no amor. Nunca acreditem nas palavras de uma pessoa magoada. Eu acredito no amor, só não sei se consigo voltar a senti-lo. Mas voltei a ter esperança de que sim. Talvez, um dia. Não hoje. Hoje vou ficar apenas aqui no meu lugar seguro, com a minha música, o meu vinho e as minhas lágrimas silenciosas.
