Solitude
Ultimamente sinto apoderar-se de mim uma imensa vontade de estar sozinha.
Não sozinha no sentido de não sair da cama, não abrir a janela, chorar ou sentir-me deprimida. Nada disso.
É mais como uma necessidade de estar com alguém de quem preciso, de quem sinto falta, alguém que neste caso sou eu.
Nesta última semana tive cá por casa o meu tio e a minha afilhada. Devido a ter crescido sem pai, os meus tios, maridos das irmãs da minha mãe, acabaram por fazer, todos eles, um pouco o papel de pai. Dois deles mais que os outros. Um deles foi o que esteve cá durante a última semana, com a filha dele que, como já disse, é minha afilhada. Ter cá a minha família é das coisas que mais alegria me dá. Contudo, e sinto-me um pouco mal por dizer isto, acabei por me sentir dividida quando eles, ontem, foram embora. Se, como disse anteriormente, tê-los cá é das coisas que mais me preenche, por outro lado, ter ficado sozinha também me agradou. Sinto-me mal por dizer isto, sinto-me... não sei, talvez egoísta seja a palavra certa. Mas é o que sinto, sem dúvida.
Sinto-me bem quando estou sozinha. Sinto-me feliz na minha companhia. Gosto de caminhar sozinha. Gosto de ver filmes sozinha, passear sozinha, fazer as minhas refeições sozinha. Gosto de limpar a minha casa apenas e só pelo prazer de, no final da limpeza, me sentar no sofá e apreciar o momento. Gosto de passar horas agarrada a um livro sem ouvir ruídos, sem telemóvel, sem pessoas.
Enfim, gosto da solidão. Acredito que solidão é uma palavra forte, muitas vezes entendida como algo negativo. Mas não sei se por força do hábito ou por ter sido algo com que sempre tive que lidar, a solidão não me assusta. Não tenho medo de estar sozinha. Pelo contrário. Gosto de estar sozinha.
Por vezes, o que me assusta é esta minha necessidade de solitude. Já recusei muitas idas à praia, muitos jantares de amigos ou de trabalho, muitos cafés ou cervejinhas ao entardecer. Tudo porque prefiro estar sozinha. Ainda há pouco, aqui sentada na minha velha cadeira de plástico na varanda, me recordava de que há umas semanas tinha falado com uns amigos e tinha dito que logo que tivesse um tempinho marcávamos (em casa) o tal jantar que andamos a adiar há meses. E sabem que mais? Eu estou de férias e tempo é coisa que não me falta. Mas, simplesmente, prefiro ficar sozinha.
Não sei se isto é bom. Não sei se é mau. Nem sei quem é que pode analisar e afirmar o que é bom ou mau, certo ou errado para cada um de nós. A única coisa que sei é que cada vez mais sinto necessidade de me isolar das pessoas. Sinto que estou cansada das pessoas. E não vou mentir: isso assuta-me. Mas é algo que é mais forte que eu. Não é que eu não possa, agora mesmo, ligar a amigas e ir beber café, ou apenas dar um passeio. Eu posso. Mas não quero.
Há cerca de quatro anos, quando vim viver sozinha, apareceu-me por acaso, ao "navegar" nas redes sociais, uma frase que me lembro de partilhar na altura. É algo que se foi mantendo actual na minha vida. Mas sem dúvida que nesta fase é, novamente, algo que faz muito sentido para mim:
"Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém... Você que decide se isso é solidão ou liberdade"
Para mim, solidão e liberdade sempre andaram de mãos dadas. E continuam a andar.
