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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

O Mundo está podre

V de Viver, 21.09.21

O mundo está podre.

Não dá para confiar em ninguém. Meio mundo quer lixar outro meio mundo. As pessoas lutam por ficar por cima, por ver quem brilha mais, quem tem a vida melhor, o carro melhor, a casa melhor. É me quase impossível pensar em viver para sempre rodeada por pessoas assim. Pessoas que não se ajudam, que só sabem julgar, que só sabem criticar.

Por isso isolei-me.

Durante o último ano passei mais tempo sozinha do que acompanhada. Sozinha mesmo. Eu, comigo mesma. Na minha casa, na praia, na rua. Sempre sozinha. Por vezes isso magoa, principalmente nos dias em que existe algo bom para partilhar. É triste sim não ter com quem dividir as conquistas, não ter com quem partilhar a felicidade. Mas é ainda mais duro perceber que quando estás na merda não está lá ninguém. Dói, dói muito. Mata-te um bocadinho a cada vez que acontece. Mas é uma dor necessária. Porque é preciso que todos percebamos que só nos temos a nós. Só podemos confiar a 100% em nós. As nossas dores nunca serão totalmente entendidas pelos outros. As nossas conquistas nunca serão totalmente festejadas e sentidas pelos outros. É duro viver num mundo onde percebes que só te tens a ti. Onde não consegues confiar nas pessoas.

E não, não digo que não existam pessoas boas. Se assim fosse também eu não seria boa. E não sou o tempo todo. Também eu já falhei a alguém, tenho a certeza disso. Também eu já fui a dor de outra pessoa, a desilusão de outra pessoa. Mas gosto de pensar que vivo a minha vida de forma a ser essa pessoa o menor número possível de vezes.

Tu podes destruir-te a ti próprio se pensares demais neste assunto. Porque somos seres sociáveis e precisamos dos outros para socializar. Mas é triste ver naquilo em que o mundo se tornou. E a culpa é nossa. Só nossa. Nós que cá estamos é que permitimos que as coisas chegassem a este ponto. Pessoas que usam outras pessoas. Amigos que não o são de verdade. Amores que não duram mais do que o tempo de validade de um iogurte. Família que se magoa por migalhas. Colegas de trabalho que se chateiam por ver quem faz o melhor papel.

Competição não saudável. Em tudo. Medir forças em tudo.

Porque não medir forças para ver quem ama mais? Porque não medir forças para ver quem ajuda mais, quem se entrega mais, quem se apoia mais? Porquê medir forças apenas por coisas que não têm interesse? Não tenho ilusão de que possa mudar o mundo e transformá-lo num mundo cor de rosa e cheio de unicórnios. Mas recuso-me. Recuso-me a entrar nessa luta de quem tem mais e melhor, de quem faz mais e melhor. E por isso isolo-me. Porque é a melhor forma de não ter que lutar com ninguém.

Deixem-me estar. Deixem-me ficar aqui sossegada no meu desassossego interno.

Pelo menos aqui a minha competição é apenas comigo mesma.

Foda-se!

V de Viver, 29.12.20

Sinto-me despedaçada. Um fracasso. Uma coisa sem arranjo. 

Sinto-me triste. Sozinha. Sugada para o fundo. 

Sinto que parte de mim morreu. Que não serei jamais a mesma. Que algo mudou para sempre.

Quero muito pensar que assim que tocarem as doze badaladas, como que por magia, tal conto da Cinderela, eu voltarei a ser eu. Voltarei a sorrir com vontade. A gostar de mim. A lutar por mim. 

Não quero mais esta dor. Não quero mais esta sensação de não ter sido suficiente, de não ter feito o suficiente. Porque, foda-se, eu fiz, eu sei que fiz, sei que mais não podia ter feito.

Não quero mais esta sensação de fracasso que faz doer cada músculo do meu corpo. Nem esta sensação de vazio no peito, vazio que doí, que arde, que me puxa para um sitio onde não quero ir. Não quero mais este poço escuro. Foda-se. Não quero mais esta queda decadente. 

É final de ano. É tempo de renovação e esperança. E eu estou aqui, a chorar, todos os dias há mais de uma semana. A querer voltar ao passado mesmo sabendo que nada volta a ser o que já foi. 

Ao mesmo tempo há uma luz que se quer acender dentro de mim. Aquela luz daquela menina alegre que eu sempre fui. Aquela luz que brilha e incomoda tanta gente, mas tanta gente. As pessoas querem ver-te bem, mas nunca melhor que elas. As pessoas querem que brilhes, mas nunca mais que elas. 

Quero muito renascer. Quero muito voltar a ser quem era. Foda-se. Voltar a sorrir. Voltar a confiar nas pessoas. Voltar a reunir-me com pessoas. Apaguei as minhas redes sociais! Pasmem! Eu! A "socialona". A que sorri para toda a gente. A que brinca com todos no trabalho. A que nunca responde mal a ninguém, e que tem sempre uma palavra amigável para dizer aos outros. Apaguei as redes sociais. Foda-se. Porque não quero ver pessoas e não quero ser vista por pessoas. Recolhi-me à minha casa. Recolhi-me para dentro de mim. Só quero estar sozinha. Só quero ouvir música e escrever. 

Mas quero muito, foda-se, quero mesmo muito voltar a ser quem era antes de tudo isto me atingir como um raio. Antes de tudo isto me destruir. Porque é assim que me sinto: destruída.

Mas reparem, eu sei que não é o fim do mundo. 

Eu sei que o sol voltará a brilhar e que voltarei a brilhar junto com ele. 

Mas sinto-me tão sugada pela tristeza de tudo isto. Tão cansada. Exausta. Sinto-me exausta de fingir que está tudo bem. Foda-se! Eu não estou bem. 

Não estou feliz. Não estou pronta para "seguir a minha vida" como dizem que tenho que fazer. Não quero conhecer pessoas novas. Não quero ir beber um copo. Não quero apanhar uma bebedeira. Não quero dançar. Não quero. Foda-se.

Não quero nada disso porque eu também não queria nada disto. 

Não queria o fim da minha relação. Não queria o fim dos meus planos e sonhos ao lado da pessoa que amo. Não quero ser "só amiga". Não quero "só ir beber um café". Não quero. Foda-se. Não quero assumir que perdi o meu companheiro, o meu melhor amigo, o meu amor. Éramos uma equipa e eu não quero que deixemos de ser. Éramos nós contra o mundo, foda-se! Não quero nada disto. Não quero.

Mas o que posso fazer se ele decidiu seguir a vida dele? O que posso fazer? NADA. 

E a única coisa a fazer quando não podemos fazer nada é, precisamente, nada. 

Este será (juro que vou tentar) o meu último post sobre este assunto. Quero encerrar este capitulo embora não me sinta preparada para tal. Mas quero. Quero encerrar este tema. No blog e na minha cabeça. Não será fácil. Voltarei a pensar nisto muitas vezes. E agora vocês dizem: como sabes, prevês o futuro? Não. Mas conheço-me. Sempre fui de lutar pelo que quero. E eu queria-o muito. Mas não há mais pelo que lutar. Ainda que eu veja nos olhos dele algo diferente do que lhe sai da boca. Embora ele mesmo diga que sabe que se irá arrepender mas que por agora é o melhor. Ele seguiu. Eu sou obrigada a seguir também.

Foda-se o amor! Foda-se esta merda toda! Foda-se tudo! Porque eu estou toda fodida por dentro e não vou mais fingir que não estou.

Desculpem, mas eu não acredito no amor

V de Viver, 23.12.20

Desculpem-me os apaixonados. Os que estão juntos, por amor, há mais de 20 anos. Os que iniciaram agora uma relação. Os que querem muito acreditar que ele existe. Desculpem-me, mas eu não acredito no amor.

Não falo do amor de mãe, nem de pai, nem de irmãos. Nem do amor que sentimos pelos nossos amigos, familiares, e até animais.
Falo do amor no contexto de uma relação amorosa. Não acredito nele, desculpem lá.

Apaixonas-te, crias laços, olhas para a pessoa como a tua metade (como se alguém fosse só metade pessoa e precisasse de outro alguém pra ser uma pessoa completa). Depois manténs uma relação durante uns anos. Por vezes muitos. Vives com a pessoa, comes com a pessoa, fazes planos com a pessoa, dormes e acordas com a pessoa. Anos a fio. Consideras a pessoa como melhor amiga, como braço direito, como tudo. Amas a pessoa. Investes tempo, atenção e sentimentos na pessoa. Achas que está tudo a correr às mil maravilhas. Uns dias melhores outros piores porque, afinal de contas, nenhuma relação é um mar de rosas. E um dia a relação acaba. E tu tentas ver aquilo da melhor forma: não tinha que ser; vamos ser amigos; vamos manter uma relação de cordialidade; quem sabe um dia ainda dê certo. Até que um dia, pouco tempo depois do fim, descobres que a pessoa não era quem dizia ser. Não era o que dizia ser. Até que descobres que afinal talvez, só talvez, não tenhas sido assim tão importante. Não tenham tido uma história de amor assim tão bonita. Não tenham sido assim tão felizes. Talvez, apenas talvez, fosses apenas tu a ver cor de rosa onde não existia sequer cor. Talvez, só talvez, tenhas sido tu a ver coisas onde não existiam. Talvez, apenas talvez, não tenhas sido assim tão importante para a pessoa. Talvez ela já tenha alguém. Talvez ela tenha colocado alguém no teu lugar sem pensar duas vezes. Tu não o farias. Mas a pessoa fez. Nem deixou o teu lugar na cama arrefecer. Mal saíste e já lá estava outra pessoa. E tu paras. Reflectes por um instante e pensas: afinal há alguém insubstituível? Afinal não pode sempre existir alguém para ocupar o nosso lugar no emprego, no comboio, no autocarro, na fila do supermercado e até na vida de quem julgámos ser o nosso amor? Na vida de alguém para quem julgámos ser importantes!

Desculpem-me mas eu não acredito no amor.
Levei um tiro no peito hoje. E não foi usada arma. Talvez seja por isso que não acredito no amor. Mas não acredito. Provavelmente nunca mais vou acreditar. Mas sei, tenho a certeza, que a vida é isto: uma sucessão de desilusões e de aprendizagens.

Um dia, quem sabe, eu possa acreditar no amor novamente. Mas agora não. Desculpem-me mas não acredito no amor.