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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Dezembro de Sol

15 coisas pelas quais sou grata, hoje!

V de Viver, 10.12.19

Hoje acordei com o cantar dos passarinhos. E por vezes esquecemos como é tão bom aquilo que é simples. 

Abri a janela e dei com aquilo que já esperava. Um fantástico dia de sol. Sei que a chuva faz muita falta, mas confesso que abrir a janela e ver este solinho a brilhar é um daqueles pequenos prazeres da vida que me faz agredecer por estar viva.

Tenho lutado este ano para sair da escuridão, embora saiba que ela estará sempre presente, e hoje recordei-me de um tempo, não muito longínquo, da minha vida em que a primeira coisa que fazia quando saía da cama era agradecer. Sim, agradecer. Há coisas muito singelas na nossa vida que, talvez pelo seu carácter permanente, se esquecemos de agradecer. E eu sei que existem muitas pessoas que riem quando digo que agradeço. Mas eu agradeço, gosto de agradecer. Li um dia algures que "a gratidão é a memória do coração", e não podia estar mais de acordo. Talvez por isso, e por me ter, felizmente, deixado levar pelo cenário de sol preenchido pelo cantar dos passarinhos, hoje decidi fazer uma pequena, pequeníssima, lista de coisas que devo voltar a agradecer todos os dias. Aquelas coisas que parecem tão nossas por direito que nunca se lembramos que nem todos tiveram a nossa sorte. A minha pequena lista para hoje é a seguinte:

1- Sou grata por estar viva;

2- Sou grata por ter saúde (ainda que não esteja totalmente recuperada da lesão, mas é tão óbvio que há pessoas em pior estado);

3- Sou grata por poder ouvir cantar os passarinhos;

4- Sou grata por poder ir à janela e ver o mar;

5- Sou grata por ter um lar e uma cama para dormir;

6- Sou grata por ter comida;

7- Sou grata por ter trabalho;

8- Sou grata por ter o meu carrinho (é velhinho mas é meu, consegui comprá-lo);

9- Sou grata por ter a oportunidade de aprender mais;

10 - Sou grata por ter a minha mãe;

11- Sou grata por ter a maioria das pessoas que amo vivas;

12- Sou grata por ter ao meu lado pessoas boas;

13- Sou grata por ter tido a resiliência necessária para chegar onde já cheguei;

14- Sou grata por ter um telemóvel e este computador de onde vos escrevo;

15- Sou grata por estes dias de sol que foi aquilo que me inspirou a escrever isto, hoje.

Podia levar o resto do dia a escrever por aquilo que sou grata pois não é só isto que me deixa com uma sensação de gratidão. Mas iria levar o resto do dia a escrever e, embora me pareça tentador, tenho outras coisas que preciso fazer. Mas finalizo este texto com uma reflexão: se todos tivessemos mais capacidade para agradecer aquilo que temos ao invés de reclamar daquilo que não temos, acredito que viveríamos num mundo com pessoas muito mais felizes.

Uma boa semana para todos, sejam felizes.

 

Uma experiência triste

Desafio 30 dias de escrita

V de Viver, 31.10.19

Entrar na sua casa com medo já lhe tinha acontecido muitas vezes. Mas digam a uma miúda de 16 anos, que tem que entrar na sua casa pela última vez, e ser rápida a escolher o que precisa trazer e vejam a reacção dela. Se olharem atentamente, confusão é a primeira coisa que lhe vão ver passar pelo olhar. Depois tristeza. E no fim, raiva. Muita raiva. Não fizera nada de errado. Porque é que aquilo estava a acontecer? Pensava enquanto entrava no seu quarto. Ao entrar dá-se conta que não tem a menor ideia do que poderão ser “bens essenciais” como o polícia lhe disse há pouco. Calcula que ele se esteja a referir a roupa, e talvez os materiais da escola. A mãe entrega-lhe um saco do lixo, daqueles pretos enormes. Mais uma vez ocorre-lhe o quanto é injusta aquela situação. Porque raio é que tinha que meter as suas coisas num saco do lixo? A raiva enche-lhe os olhos de lágrimas. Mas sabe que tem que ser rápida, por isso mais vale começar. Mas por onde? Roupa. Material escolar. Brincos, colares e esse tipo de acessório. Livros, CLARO. Não vai deixar nem um dos seus livros nas prateleiras. Cd’s. Dá-se conta da quantidade de cd’s que tem. Será que levo todos? – pensa em quanto percorre com os olhos os mais de quarenta cd’s que tem na prateleira. Decide-se por levar apenas os que tem ouvido mais. O saco já está cheio. Está prestes a sair do quarto para pedir mais sacos à mãe quando repara que ela lhe deixou um rolo deles na soleira da porta. As lágrimas vêm-lhe aos olhos. – É claro que a mãe sabe que um saco nunca me iria chegar - pensa com carinho. Despeja gaveta após gaveta. Limpa o conteúdo de cada prateleira, disposta a não deixar nada para trás. Mas deixa. Deixa os sonhos. Deixa a inocência. Deixa o sítio onde ela achava que estava segura. O sítio onde ela passou a maior parte dos seus dias, o seu porto de abrigo. A mãe vem chamá-la. Está na hora de ir embora. Ela resmunga que foi rápido demais, e a mãe diz-lhe que estão ali há quase uma hora. Têm mesmo que ir. Uma hora? Não deu conta do tempo passar. Pensa ela, para logo de seguida outro pensamento lhe surgir: mais de dez anos naquela casa, a vida que ela conhecia, e uma hora é o tempo que lhe dão para se despedir? Olha à sua volta mais uma vez. As paredes do quarto de dois tons de rosa por ela escolhidos, os detalhes da cama pintados à mão, por ela, da cor da parede. As estrelas e a lua coladas no teto brilhavam no escuro. Neste ponto bebe as lágrimas. Não contém um soluço e lembra-se de repente que tem que ser forte. Pela mãe. Foi a mãe que sofreu a maior parte da violência. É à mãe que isto está a custar mais. Não pode chorar. Sai do seu quarto e fecha a porta. Lá dentro ficaram os sonhos.

Tem dezasseis anos e sabe, instantaneamente, ao sair para rua que esta será lembrada por ela como a experiência mais triste da sua vida.