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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Ah, a tragédia de um amor impossível!

Afinal, quanto tempo dura a eternidade?

V de Viver, 04.11.21

IMG_20211104_180642.jpg(Imagem: @poesia.voo)

Eu queria-te. Tu querias-me. Não era de hoje. Mais de cinco anos de trocas de olhares, uns de amizade, outros de algo mais. Eu sabia-o. Tu também. Mas a vida tinha outros planos para nós. 

Vida que segue. E seguiu. Mas com as voltas que só ela sabe dar quis o destino que as nossas almas, que já se tinham há muito reconhecido pela energia, se cruzassem e tocassem, finalmente. 

Permiti-me a vulnerabilidade. Permiti-me voltar a sentir de verdade ao fim de um ano de solidão. Permiti-me sentir-te. Permiti-me deixar que me levasses. E tu levaste-me. Levaste-me a ver a lua. Levaste-me a ver as estrelas. Levaste-me a ver os aviões levantar voo. Não tivemos tempo para quase nada, mas ainda houve tempo para promessas de tantos outros sítios onde me levarias. "Tu mereces tudo" - dizias tu. 

Mas a vida, com as tais voltas que só ela sabe dar, não quis que tivéssemos tempo. E eis que surge a maior reviravolta que podíamos ter tido. Surge o impossível da nossa história. Impossível talvez seja demasiado dramático, pensando bem. Porque a única coisa que pode, realmente, tornar um amor impossível é a morte. E felizmente nenhum de nós morreu. Mas há valores, princípios que ambos temos enquanto seres individuais. E tu seguiste os teus. E queres saber a verdade? Tenho orgulho em ti pela escolha [óbvia] que fizeste. Faria o mesmo, espero que saibas isso. 

Mas nada disso faz com que doa menos. Nada disso torna o fim do sonho mais fácil. Tenho palavras tuas gravadas no meu peito: "Quis-te durante tanto tempo e agora isto? Mas eu não consigo estar longe da minha filha, desculpa". Como poderia não te desculpar por me deixares por um motivo tão válido? Estávamos tão no inicio, é isso que me dói e que me acalenta a alma ao mesmo tempo, sabes? Pelo menos foi agora e não quando alcançássemos aquele ponto sem retorno [se é que não o tínhamos já alcançado]. 

Dói-me a tua partida mas ao mesmo tempo percebo-a. Talvez seja por isso que me dói ainda mais. Sinto que perdi algo que nunca cheguei a ter. 

Trataste-me tão bem, sabes? Melhor do que qualquer pessoa que passou na minha vida até hoje, juro-te. Foste o carinho que sempre procurei, o colo que nunca antes tinha recebido. E a certeza da permanência da tua partida dói-me mais do que qualquer outro adeus na minha vida. Fizeste o que tinha que ser feito. E só te desejo a maior felicidade do mundo. 

Foste o maior "e se?" da minha vida. Foste a mais breve eternidade que tive. E foste, também, a certeza de que depois de um amor, pode sempre chegar outro melhor. 

Dói muito, sabes? Pensar em tudo o que poderiamos ter sido. E sinto que podiamos ter sido muito, podiamos ter sido tudo. Estava tudo lá. Mas o destino não quis. E não se pode lutar contra o destino. Pelo menos não no nosso caso. "Quem me dera ter-te conhecido antes" - disseste-me mais que uma vez. Soubessemos nós o pouco tempo que nos restava para estarmos juntos...

Obrigada pelos momentos especiais. Obrigada pelo carinho. Obrigada por este pedacinho de eternidade. Obrigada por me teres mostrado que mereço alguém que me trate como uma princesa. Porque foi isso que fizeste neste tão breve momento de eternidade, trataste-me como uma verdadeira princesa. Parte, mais vai com a certeza de que nunca antes alguém me fez sentir tão especial. 

Um beijinho meu campeão. Terás sempre um lugar especial no meu coração. 

Prometo ser sempre tua amiga, tal como me pediste. E, acredita, não precisavas pedi-lo. 

Circulo Fechado

V de Viver, 15.01.21

Já alguma vez sentiram o fim de um ciclo dentro de vocês? Uma sensação de paz, de que uma ponta se uniu à outra, o início unindo-se ao fim. Uma sensação, quase física, de que algo se fechou realmente. Já foram surpreendidos por essa experiência?

Hoje, depois da minha corridinha, decidi dar uma caminhada pela praia. Quase todos os dias o faço, mas hoje, provavelmente por estar um sol fantástico e uma temperatura agradável, apeteceu-me descalçar as sapatilhas e sentir a areia nos pés. E foi aqui, na minha praia, ouvindo a melodia do mar juntamente com a voz da Giulia Be que tocava nos meus fones. Foi aqui, a sentir a areia fria nos pés nus, a recolher conchas e a ver no horizonte o céu a unir-se ao mar. Foi aqui que senti algo a mudar dentro de mim. Algo a chegar ao fim. Algo a desenhar um círculo fechado. A transmitir-me a mensagem de que chegou ao fim mais um ciclo. De que está na hora de deixar para trás o passado. De que está na hora de abandonar a ilusão de que algo voltará a ser o que já foi. Porque nada volta a ser o que já foi. Porque a vida é feita de escolhas, de ciclos que se fecham e de outros que se abrem. Porque nós estamos em constante mudança e, claramente, não somos hoje a mesma pessoa que fomos ontem. Foi aqui, num dos meus sítios preferidos, que percebi que está na hora de seguir. Sim, a vida continuou a seguir todos os dias, mas refiro-me a seguir mesmo. A abandonar o que não foi e eu queria que tivesse sido. A deixar para trás o que não me serviu. A secar as lágrimas, levantar-me, passar as mãos nos joelhos esfolados pela queda, erguer a cabeça e seguir. Seguir de verdade. Seguir a minha vida, renovar os sonhos, viver um dia de cada vez. Mas faze-lo de coração leve. Em paz. Com a certeza de que fiz tudo o que poderia ter feito, de que dei o meu melhor, de que amei com cada partícula do meu corpo. Enquanto escrevo estas palavras sigo ainda na areia húmida e fresca. Em paz. Com a certeza de que o que aconteceu foi, exatamente, o que deveria ter acontecido. Assim como o que não aconteceu não era, certamente, para ter acontecido.

Como pode doer o vazio?

V de Viver, 09.12.20

Não sei por onde começar. Nem tão pouco o que quero dizer.

Algo dentro de mim dói. Uma dor miudinha que eu não quero deixar doer, que não tenho permitido que aflore. Ultimamente evito as lágrimas com a mesma força que evito o silêncio. Por vezes o silêncio fala demais e não encontro em mim forças para escuta-lo. 

Dói. Sei que passa, sei sim. Mas talvez seja o facto de eu não permitir que doa, tudo de uma vez, que me faz arrastar esta dor no peito. Esta ausência de algo que eu acreditava existir. Talvez seja por me querer convencer que está tudo bem, que tinha que ser assim, que foi o melhor. Ou talvez seja por não deixar cair as lágrimas. Sim, já chorei. Mas sinto que não chorei tudo, contradigo-me por não conseguir chorar. Não é apenas não querer chorar, é que, realmente, não consigo faze-lo. 

Esta dor é como um buraco. Parece que não está lá nada, porque efetivamente não está. Mas doí. E como pode doer o nada? Como pode doer o vazio?

Não sei se me dói o fim do que existiu, ou se o que me magoa é o fim daquilo que achei que existia. Não sei se tenho saudades da nossa história ou da história que acreditei que tínhamos. Porque é possível, é sim possível sentir falta daquilo que achámos que existia. Da ilusão que criámos na nossa cabeça e arrastámos até ao nosso coração. Ou será que criámos no coração e arrastámos para a cabeça?

Dói. Dói o silêncio que tento preencher com música alta, com o barulho das ondas do mar e com as gargalhadas que dou fingindo que está tudo bem. Dói a ausência. Dói a falta do companheirismo. Choro a perda de um amor, de um amigo, de um irmão. Talvez, afinal, não seja assim tão bom ter isso tudo na mesma pessoa. Dói a dor miudinha que não me deixa dormir de noite, que não desaparece mesmo quando corro até à exaustão. Dói a casa vazia ao final do dia. Dói a falta de ter a quem contar o nosso dia, de não ter com quem partilhar o riso e as lágrimas. Dói.

Dói e sei que não sou a única a passar pela dor. Neste preciso momento, em algum lugar no mundo, haverá pessoas a passar por dores piores. Sei isso e sinto-me, em parte, ridícula por estar a partilhar a dor da perda de uma relação. Há coisas tão, mas tão piores. Mas é esta a minha dor agora. É em mim que dói. Só eu sei a forma como dói. E as dores não se medem, não se pesam nem se comparam. Dói em cada um de sua forma e a vida nunca será uma competição de dores.

Mas acredito que a dor passará. Aliás, sei que a dor passará. Tudo passa. Todas as dores, todas as alegrias, todas as pessoas e momentos. Porque tudo é passageiro nesta vida. Inclusive nós mesmos. 

Sei, acredito, quero acreditar, que um dia acordarei e esta dor terá passado. Que um dia, ao partir, a lua levará consigo a minha dor. Que um dia com o sol nascerá também a minha vontade de seguir. Porque a vida é isso mesmo. Seguir, mesmo que não conheçamos o caminho, mesmo que não saibamos para onde ir, não devemos nunca deixar de seguir. O caminho será sempre em frente. Mesmo que custe, sempre enfrente. 

 

"Essa angústia que sentes por dentro é culpa de tudo o que não queres largar"

Miguel Ribeiro in O Céu é para quem não desiste de voar

Carta ao meu pai

O pai que nunca tive, o pai que nunca me quis

V de Viver, 25.11.19

Olá pai! Gostava de te fazer algumas perguntas. 

De que cor são os teus olhos, pai? Qual é a cor do teu cabelo? És alto? És magro? Vives onde, pai? Tenho realmente duas irmãs como diz quem te conhece? É verdade que elas são enfermeiras, as duas? É verdade que vives numa casa muito grande e que tens um carro topo de gama? Os teus pais ainda são vivos, eu ainda tenho avós? Tenho muitos primos, pai? Vocês juntam-se sempre nos aniversários e no Natal, pai? A família é muito grande? 

Desculpa lá, pai. Mas tenho tantas, mas tantas perguntas.

Porque é que nunca me quiseste, pai? Porque é que abandonaste a mãe quando ela mais precisava de ti? Quando ela viu morrer o irmão mais novo tendo um bebé prestes a sair-lhe das entranhas. Seis dias, pai. Seis dias separaram a morte do irmão da mãe, do meu nascimento. E onde estavas tu, pai?

Porquê, pai? Porque é que me fizeste crescer e viver com a humilhação de ter um X no lugar do teu nome? Porque é que não quiseste sequer que eu tivesse o teu apelido? Namoravas a mãe há muito tempo quando ela ficou grávida, se fosse uma aventura de uma noite eu podia fingir que respeitava a tua decisão. Não respeitaria. Mas, pelo menos, poderia ir buscar algum consolo a esse facto. Mas esse facto não existe, pai. Vocês eram namorados. E tu escolheste abandoná-la.

Julgaste ser cedo, pai, ter essa designação aos vinte e sete anos? Então porque é que foste pai logo no ano seguinte? E outra vez logo a seguir. Duas filhas. Duas raparigas. Eu também sou rapariga, pai!

No que é que elas são melhores que eu, pai? Não tenho ciúmes, como poderia ter? Nunca te conheci. Tenho dúvidas, pai, e curiosidade. Porquê, pai? Porque é que elas tiveram direito a estudar na universidade, segundo fala quem te conhece. Porque é que elas tiveram o privilégio de formar-se em enfermagem, as duas? Porque é que elas tiveram direito a uma vida recheada e eu não, pai? Decidiste que elas seriam melhores que eu mesmo sem me conheceres?

Porque é que nunca enviaste um cêntimo à mãe, pai? Sabias que ela trabalhou muito, todos os dias, do nascer ao pôr do sol, para que eu conseguisse estudar? Não conseguiu pagar-me os estudos na universidade. Mas ficou, imensamente, feliz quando acabei o secundário sendo das melhores alunas da escola. Sim ela ficou muito orgulhosa. E sabes o que ela sentiu depois, pai? Quando não me conseguiu pagar os estudos na universidade? Quando me viu obrigada a trabalhar para ajudar? Não sabes pois não, pai? O que é olhares para a tua mãe e veres chispar nos olhos dela a desilusão de quem se esforçou para conseguir um futuro para a filha e não conseguiu, ainda assim, proporcionar-lho. Não sabes, pai. O que é veres a tua mãe dizer que não tem fome e saberes que o que ela está a fazer é a dar-te a comer a última refeição que tem em casa. Não sabes, pai.

Mas ainda tenho mais perguntas, pai. Uma vida inteira delas.

Porque é que nunca tiveste curiosidade em me conhecer? Sabes o que eu faço na vida, pai? Sabes onde cheguei? Provavelmente se soubesses ficarias feliz. Ficavas, pai? Ou tudo o que é relacionado comigo não te interessa mesmo? 

Porquê pai? Porque é que me obrigaste a crescer sem saber o que é chamar pai a alguém? Tiveste tantos anos para me procurar, pai. Sempre soubeste onde a mãe vivia. Sempre soubeste como era fácil encontrar-me naquele meio pequeno. Mas nunca quiseste, pai. 

Não sei o teu nome completo. Não sei a tua idade. Não sei a tua data de aniversário. Não sei sequer qual é o teu aspecto. Quem sabe se não nos cruzámos já alguma vez, pai? Talvez.

Sabes pai, estou quase a fazer vinte e nove anos. Sim, faço-os esta semana. E a idade trouxe-me maturidade. Mas a idade trouxe-me, sobretudo, sabedoria. Sabedoria para saber que algumas perguntas nunca vão ter uma resposta. Mas, mais importante que isso, a vida e a idade mostraram-me que por vezes tudo aquilo que nós mais queremos, deixa, um dia, de fazer sentido. Que as respostas que tanto almejavamos deixam de ser importantes. 

Sempre te quis, pai. Sempre quis que me quisesses, pai. 

Sonhei durante muitos anos que um dia tu chegarias ao pé de mim com uma resposta para cada uma das minhas perguntas. E até me atrevi, tamanha era a minha inocência, a pensar que, talvez, talvez essas respostas fizessem sentido. Talvez tu tivesses tido os teus motivos para nos abandonares. 

Sonhava que chegarias perto de mim, me abraçarias e me pedirias perdão, em lágrimas. Que as nossas lágrimas se juntariam formando um imenso mar salgado. Que choraríamos juntos por tudo o que nos foi tirado, por todos os anos de afastamento. Que me apresentarias, com orgulho, à tua família. Que eu passaria a fazer parte da tua vida.

Mas foste tu, não fostes, pai?

Foste tu que nos tiraste estes anos todos. Foste tu que não me quiseste. Foste tu que escolheste fingir que eu nunca existi. E és tu que continuas a fingir que eu não existo.

Mas sabes que mais, pai? 

Eu não te quero. Não quero saber o teu nome. Não quero saber quem és ou onde estás. Não quero fazer parte da tua família. Não quero, sequer, saber se estás morto ou vivo. Embora saiba que estás vivo porque há sempre alguém que faz questão de me lembrar.

Tu, paizinho, foste um cobarde.

E existem cobardes que se arrependem e voltam atrás. Emendam os seus erros. Remendam o passado agindo no presente. Mas tu não. Tu nunca o quiseste fazer. Foi mais fácil para ti fingires que eu não existia. 

Foste um cobarde, pai. 

Hoje posso afirmar, feliz, que não preciso de ti. Mas já precisei muito. Já me fizeste muita falta.

Mas não mais. 

Fecho este ano o ciclo durante o qual fui apenas uma menina à espera que o pai a amasse. À espera que o pai a quisesse, lhe desse carinho e amor. Uma menina que sentiu sempre que tinha feito alguma coisa errada. Que cresceu a pensar que se o pai não a queria ninguém a ia querer. Uma menina de olhar triste que sorria, chorando por dentro, sempre que via os primos a ter uma brincadeira com o pai. Os amigos com os pais nas festinhas da escola. Que se enchia de lágrimas ao ver uma filha com um pai fosse qual fosse a situação.

Essa menina deixou de existir hoje. Agora mesmo ao finalizar este texto.

Adeus, pai!