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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

De todas as minhas preocupações

V de Viver, 14.03.24

De todos os meus receios poucos foram os que se concretizaram. De todas as minhas preocupações poucas foram as que se mostraram fundadas. 

Preocupamos-nos demais, pensamos demais, vivemos acelerados demais. Sofremos por antecedência, choramos antes da tragédia e, na maioria das vezes felizmente, a tragédia não chega. 

É fácil falar: "vive sem stress", "deixa a vida acontecer". Clichés. Que devíamos usar à regra. 

Os dias passam, as semanas correm e os meses são como o vento. E todos os nossos anseios, no fim, só serviram para nos perturbar. 

Podemos mudar isto? Talvez. É difícil explicar a ansiedade, mas ela nem sempre tem que ser uma coisa negativa. Alguma ansiedade é necessária para que não corramos riscos inúteis. O medo faz parte da vida e devemos aceita-lo. Só não devemos permitir que nos cegue. Que nos molde e nos diminua. Há que agir, sim, apesar do medo. E sim, é precisamente isso a coragem. 

Somos muito mais corajosos do que imaginamos. Basta que ela seja precisa para que nos apercebamos da força que temos, do que somos realmente feitos. 

A minha maior coragem na vida foi não desistir. Apesar do medo, da desilusão, dos fracassos, dos erros (que no fundo foram apenas aprendizagem) continuei sempre a acreditar que era possível. Que existia uma vida maravilhosa para lá do medo.

E há. 

Acreditem tanto como eu acreditei. Os nossos sonhos estão mais perto de nós do que aquilo que podemos imaginar. Os nossos maiores anseios raramente têm fundamento. Não desistam de sonhar, nem de acreditar num amanhã melhor. Semeiem as vossas plantas da melhor forma possível e desse modo nunca terão que temer a colheita. Porque ela chega meus amigos, tarde ou cedo tudo o que plantamos dará frutos. 

Voar

V de Viver, 30.07.20

Hoje, depois de ter mergulhado na água salgada, e após um banho relaxante, peguei no livro "Sagrado Feminino" da Inês Gaya. Logo a primeira impressão que o livro nos transmite é a de que vamos encontrar algo. Algo nosso, dentro de nós, perdido ou esquecido. Contudo, nada vos posso falar acerca do livro pois ainda só li a introdução. E não foi preciso passar daí para logo ser assolada por algo que eu sei que me incomoda, já há algum tempo, mas que teimo em reprimir. A Inês descreve o livro como sendo para todas as mulheres. E foi, justamente, nesse parágrafo, quando li a palavra mãe, que algo quis, novamente, emergir. Alguns minutos antes de começar a ler o livro falei com a minha mãe. Hoje ela vai a uma consulta. Nada grave, felizmente. No entanto, é ainda mais nesses momentos, que sinto que estou a falhar como filha. Após a minha escolha de vir viver para o Algarve, por vezes sinto que falho à minha mãe por não estar mais presente na vida dela. Mas não me interpretem mal. Falo com a minha mãe três ou quatro vezes por dia. Por vezes, mais. Mas refiro-me a estar lá. Presente fisicamente. Refiro-me a não a acompanhar a consultas, não lhe pegar na mão, não a beijar e abraçar diariamente. Às vezes tenho medo. Medo que lhe aconteça alguma coisa e eu não esteja lá para a apoiar no exacto momento em que ela precisar. Medo de não lhe amparar a queda, como elas fez comigo inúmeras vezes. Medo que o tempo que demora uma viagem de 200km possa ser longo demais. 

O medo não é bom. Consome-nos, devagarinho. Eu não penso nisto a toda a hora. Mas por vezes, como hoje, sinto-me uma péssima filha. Péssima por não retribuir, diariamente, tudo o que ela fez por mim, por não a abraçar e beijar todos os dias como ela fez comigo enquanto vivi com ela. Receio um dia olhar para trás e ver que fiz a escolha errada. Que podia ter escolhido viver no Alentejo, perto dela. Receio estar a ser egoísta ao querer viver aqui. Contudo, sei que precisava afastar-me. Fui muito feliz no Alentejo, minha terra natal. Mas tudo o que nos faz muito felizes pode, no reverso, fazer-nos muito infelizes. E é assim que olho para a minha vida no Alentejo. Foi, sem dúvida, um privilégio viver a maior parte da minha vida ali, no meio da Natureza. Mas toda a minha infância, adolescência e entrada na vida adulta foi um percurso de extremos. Fui de um extremo ao outro várias vezes e, quando consegui, fugi!

Mas o problema de fugir do que me fez infeliz foi que me levou a afastar daquilo que me fez feliz. 

A minha família. A minha mãe. A minha irmã. Ficaram lá. E eu, por aqui vou vivendo. Por vezes surgem estes episódios de sensação de fracasso enquanto filha mas sei que a minha mãe se orgulha tanto de mim como eu dela. Provavelmente mais. Não tenho como saber quais são os sentimentos de uma mãe porque não o sou. Mas por vezes sinto-me mal por estar longe. Sinto vontade de largar tudo e correr para os braços da minha mãe. Quando penso no tempo que estou a viver fisicamente afastada dela, apodera-se de mim um medo irracional de a perder. Mas sei, no entanto, que todo o "rasgar" de cordão umbilical é necessário. Sei que foi o facto de vir para longe que me moldou, tornando-me quem sou agora, além de todos os ensinamentos transmitidos pela minha mãe. É preciso voar. E para voar é preciso sair do ninho. O que não significa que isso seja fácil, simples ou indolor. Contudo...quem disse que o caminho seria fácil?

O medo de voltar a perder-me

De volta à rotina

V de Viver, 05.01.20

Amanhã volto ao trabalho. 

E estou nervosa. Parece uma coisa parva porque não vou iniciar um novo trabalho. Vou apenas voltar ao meu trabalho, à minha rotina dos últimos quatro anos. Mas depois de três meses afastada por causa da lesão, voltar amanhã está a levar-me a vivenciar um misto de emoções neste momento.

Por um lado estou com imensa vontade de voltar à minha vida normal. Por outro lado estou com medo. Medo de me perder novamente. Medo de não estar preparada para lidar com o ambiente tóxico do trabalho. 

Quero voltar à rotina, mas não quero a parte em que tenho que lidar com gente estúpida. Com gente que se quer meter onde não é chamada. Com gente que opina mesmo sem ninguém lhe pedir opinião. Com gente falsa, embora saiba que nem todos são assim. Mas o problema é que a grande maioria é. 

Estava exausta daquele ambiente quando me lesionei. Sentia que a minha cabeça não ia aguentar mais (já disse aqui no blog que o meu trabalho é mais cansativo a nível psicológico do que físico). Neste tempo em casa consegui distanciar-me e "lavar" a mente daquilo tudo. Mas sei que vou voltar e que vão existir coisas com as quais ainda não sei lidar, porque nunca vou saber. Injustiça. Não sei lidar com ela mas tenho que viver com ela diariamente. Mas o que posso fazer? Sei que não depende de mim. Sei que de mim depende apenas não ser injusta com ninguém. E acreditem que me sai de forma inata, não preciso fazer nenhum esforço para não ser injusta. Agora, claro, acredito que em algum momento também já o fui. E tenho a certeza que me arrependi depois. Mas enfim... só queria estar feliz por voltar.

E não estou assim tão feliz. Estou com medo, isso sim.

Muito medo de voltar a deixar-me levar por tudo o que acontece e pela forma como as pessoas lidam umas com as outras. Estou aterrada com a possibilidade de voltar a cair, de voltar a afundar-me. 

Gosto do que faço. Gosto muito do meu trabalho. Mas cresce dentro de mim, a cada dia, uma desmotivação enorme por ter que me deslocar 80km todos os dias. Por ter que lidar com tanta gente falsa. (Eu sei que há quem esteja pior, eu sei.)

Mas eu vou conseguir. Tenho que conseguir. Eu já sou eu novamente. A V. de 2019 ficou no ano passado. Só tenho que me manter eu. 

Para este ano há cinco coisas que quero lembrar-me diariamente, relativamente ao trabalho:

1º Colega não é amigo;

2º Não devo ligar à opinião dos outros nem às critícas (a menos que sejam construtivas);

3º Não devo falar da minha vida pessoal (mesmo quando fazem aquelas perguntas que parecem inocentes mas cuja resposta não lhes diz respeito);

4º Devo praticar mais o silêncio, não sou eu que tenho que levantar/animar o ambiente;

5º Não devo deixar-me abalar com a forma como falam comigo (manter o meu discurso assertivo ao contrário do deles);

Vai correr tudo bem! Tem que correr tudo bem.

Desejem-me sorte!