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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Dias

V de Viver, 05.02.21

As coisas acabam, a vida muda e tu segues em frente.

Mas ainda haverão dias em que choras. Dias em que olhas pela janela, vês a chuva cair e lembras-te de momentos. Dias em que ouves uma música e as lágrimas aparecem sem aviso. Dias em que um cheiro chega até ti, sem perceberes de onde, para te recordar de dias felizes. Dias em que acordas sem perceber o porquê das coisas terem sido como foram. Em que te deitas com a sensação de que te falta um pedaço. Dias em que te lembrarás de todas as lutas e te perguntarás para que serviram, afinal. Existirão dias em que nem o sol te conseguirá aquecer. Dias em que nem o frio invernoso lá fora será superior ao que sentes por dentro. Dias em que nem o mar te acalmará o coração. Nem a chuva te limpará a alma. Nem a música, por mais alta que a ouças, te calará os pensamentos. Dias em que, por muita força que tenhas, as pernas te irão fraquejar. Em que sentirás o coração a despedaçar-se, de novo, só por causa de uma lembrança. Dias em que só queres estar deitada, ouvindo músicas tristes e deixando as lágrimas cair livremente. Dias demasiado cinzentos, em que não conseguirás ver cor em nada. Em que, por muito que tenhas a agradecer, só conseguirás ver o que te falta. Dias em que a recordação será mais forte do que a vontade de esquecer. Dias em que a tua força não será a mesma. Dias em que te vês deitada no chão, agarrada a lembranças, e à dor do que poderia ter sido e não foi. Dias em que beberás essas lágrimas que, em tantos outros dias, consegues evitar. Dias em que te sentes completamente destruída, sem força e sem esperança num amanhã melhor. Dias em que te sentes absolutamente sozinha. Em que não consegues imaginar que, um dia, ainda serás muito feliz. Dias de absoluta tristeza e dor.

A única coisa que podes e deves fazer nesses dias é aceita-los. Aceitar a dor. Deixar doer. E ter a certeza de que, no próximo dia, as coisas serão melhores. Que a vida voltará a sorrir e o sol voltará a brilhar. 

Porque nunca nada dói para sempre com a mesma intensidade. Um dia irá doer menos. E no outro, sem que nada o previsse, saberás lidar perfeitamente com essa dor. 

Repara que eu não disse que ela iria embora. Não vai. Mas, um dia, fica muito mais fácil conviver com ela.

Do avesso

V de Viver, 31.05.20

Hoje acordei do avesso. 

Olhei-me ao espelho e não fiquei satisfeita. Mas não me refiro ao meu aspecto físico. Não falo dos "quilinhos" a mais. Da celulite. Das olheiras de quem pouco dormiu nos últimos dias. Não. Refiro-me à minha alma. Ao que está dentro de mim. Ao passado, ao presente. A tudo o que fiz a pensar que seria o melhor, mas que não foi. A todas as vezes que me anulei para caber no mundo dos outros. Para ser aceite pelos outros. A todas as vezes que engoli as minhas emoções para que ninguém as visse escorrer pelos meus olhos. Todas as vezes que disse "sim" quando queria dizer "não". Todos os abraços que dei a pensar que receberia a troca.  Todas as palavras que dei aos outros para os reconfortar. Onde é que isso me levou? Dou por mim a pensar que passei a minha vida a dar aos outros tudo aquilo que eu mais queria receber. Todos os beijos, abraços e palavras de conforto que ofereci, quantas vezes me foram retribuídos? 

Hoje acordei do avesso.

Não gostei do que vi cá dentro. Não gostei da sensação de carregar o mundo nas costas. Não gostei de saber que se eu desistir, se eu deixar cair aquilo que seguro, a minha vida desmorona. Não gostei de sentir que piso em areia movediça. De sentir que posso ser sugada a qualquer momento se deixar de usar a minha armadura. Não gostei de me sentir perdida, como tantas vezes já senti. Afinal de contas, eu sou importante para quem? 

Hoje acordei do avesso.

Não gostei. Não quero mais carregar o mundo nas costas. Não quero mais ser o degrau onde todos se equilibram para subir mais alto. Não quero ser aquela que dá um "empurrãozinho" em todos e que, quando precisa, não tem onde se apoiar. Não quero mais sentir-me pequena num mundo de gente que se faz maior do que aquilo que é. Não quero mais passar a vida envolvida neste mundo de aparências. Neste mundo de pessoas falsas. De pessoas que não dizem o que realmente sentem. Pessoas que falam com a cabeça mas nunca com o coração. 

Hoje acordei do avesso.

E hoje, só por mim, vou manter-me assim. 

A varanda

V de Viver, 12.05.20

A velha cadeira de plástico. Já perdi a conta a quantas vezes me sentei nela. Uma cadeira. Uma companheira. Uma pensamento estúpido, talvez. Sento-me e deixo-me aquecer pelo sol. Fecho os olhos. Deixo que os meus ouvidos apurem os sons que percorrem, soltos, o espaço à minha volta. Pássaros a cantar. Uma melodia dos deuses. Um som que acalma a alma. Sons da cidade. Carros a passar. Pessoas a falar. A vida que, aos poucos, volta ao normal. Obras lá longe. Um cão que ladra. Uma buzina de algum condutor apressado. Sinto o sol a queimar a minha pele mas não me movo. Deixo-me estar. Totalmente imóvel. Apenas o meu peito sobe e desce. Respiração lenta. Lágrimas que teimam em queimar-me os olhos. Não quero que elas corram. Mas deixo-as correr. Pensamentos que afloram frenéticamente. Uns atrás dos outros. O que foi. O que poderia ter sido. O que ainda irá ser. Continuo imóvel. Sopra uma brisa que me ajuda a suportar o cálido sol. Inspiro. Expiro. Não sei quanto tempo passou. Mas o tempo não importa. Procuro em mim a paz. Sei que, algures, no mais profundo do meu ser, ela existe. Sempre existiu. Procuro-a como quem procura água após percorrer milhares de quilómetros num deserto inflamado. Aquele buraco no peito. Imagino-me fora do meu corpo. A olhar insistentemente para mim. O que procuro? Sinais de que, afinal, está tudo bem? Esquadrinho o meu peito em busca do buraco. Quero fechá-lo. Enchê-lo com qualquer coisa. Apaziguar a dor que ele me causa. Sei que ele está lá. Sinto-o. Mas não o vejo. Como uma nódoa negra que já se dissolveu mas que continua a doer. É isto a vida? Pergunto-me. Provavelmente, é justamente isto a vida. Uma onda. Subidas e descidas. Felicidade e tristeza. Solidão. Dor. Amor. Altos. Baixos. Lágrimas. Sorrisos. Fui eu que escolhi? Ou estava destinado a ser assim? Perguntas sem resposta. Ou, talvez, no fundo, eu saiba que todas as nossas escolhas nos levam ao lugar onde estamos agora. Abro, lentamente, os olhos. Deixo-os acostumar à luz. Luz. Justamente aquilo que eu preciso. Um pouco de luz nesta escuridão que me devasta. Fases. A vida é feita delas. E eu sei bem o que é ir de um extremo ao outro em poucos segundos. Oh, se sei!

V. de Viver

Noite

V de Viver, 11.05.20

As noites são a pior parte. Escuridão. Frio. Chuva. Tudo na vida tem, pelo menos, duas perspectivas. O que pode ser muito bom, sinónimo de aconchego e noites de amor. Pode, no reverso, ser triste. Solidão pura. Escolhas. Tudo nesta vida são escolhas. Cada um faz as suas. Certas ou erradas? O tempo trará a resposta. O tempo trás sempre as respostas. Sento-me no sofá com o computador nas pernas. Não estou bem. Mudo de posição. Continuo a sentir-me desconfortável. Tenho fome. Levanto-me do sofá e vou comer. Como. Volto ao sofá. Sento-me. Levanto-me. Falta qualquer coisa. O buraco no peito faz-se sentir. Olho a noite estrelada. Saio para a varanda. Gelada e sombria, a noite decorre lá fora. Vidas que se vivem no interior de cada casa. Vozes. Luzes. Mas não na minha casa. Aqui estou só. Escolhas. Nunca sabemos se são certas. Nunca. Até ao dia em que sabemos. O dia em que acordamos e percebemos que, afinal, está tudo bem. Fizeste o melhor que sabias. Deste aquilo que podias dar. Tenho fome. O buraco que toda a vida tentei tapar. Umas vezes com comida, outras vezes com pessoas. Erros. O buraco deve permanecer livre. Aberto. Como se fosse uma passagem de ar. Ar esse que eu devia deixar trespassar-me. Limpar-me. Aliviar-me a dor. Mas, qual dor? Ah. A dor da alma. A pior de todas. A que leva mais tempo a sarar. A que dói mais. Digo eu. Mas, no entanto, o que sei eu, afinal?

V. de Viver