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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Brilho cruzado

V de Viver, 27.12.21

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Ao ler uma frase que escrevi sobre uma das melhores experiências da minha vida (andar a mais de 200km/h numa mota, texto que está aqui) dou-me conta, mais uma vez, como tudo na vida é passageiro. Como as pessoas podem entrar na nossa vida e sair deixando apenas as recordações. 

Acredito que sempre vão existir pessoas nas nossas vidas, mas acredito também que nenhuma fica para sempre. Nem nós ficamos para sempre. Mas acho que é isto, também, que faz a vida valer a pena. Pessoas entram e saem. Amores vêm e vão. Mas deixam algo e, gosto de pensar, levam algo também. 

Ninguém entra na nossa vida por acaso, cada vez tenho mais a certeza disso. Existem pessoas que entram para nos mostrar algo, fazer ou ensinar alguma coisa. Mas ninguém, absolutamente ninguém, cruza o nosso caminho por acaso. Até mesmo uma pessoa com quem nos cruzamos na rua, apenas uma vez na vida, nos pode ensinar algo. Eu acredito mesmo nisto. E por causa do meu trabalho acredito cada vez mais. 

Todos temos uma história todos sabemos algo que outra pessoa não sabe. Todos temos experiências diferentes e é isso que nos torna pessoas únicas. Mas essas experiências dos outros, tal como as nossas, podem ensinar algo e quase sempre ensinam. Se pudéssemos estar mais atentos às pessoas. Se pudéssemos escutar mais e ver, realmente ver, os outros. Se todos fossemos mais pacientes com as dores dos outros. Com a maneira de falar, de rir, de andar. Tudo em cada pessoa é único. Tudo em cada pessoa nos pode ensinar algo. Só precisamos estar mais atentos e, com certeza, vamos perceber que todos, absolutamente todos, carregam uma história que nos pode ensinar muito. Todos os que cruzam o nosso caminho deixam algo e levam algo. É isso que torna a vida mais brilhante: o brilho de cada um de nós cruzado entre si. 

(Fotografia: @krisroller)

Ah, a tragédia de um amor impossível!

Afinal, quanto tempo dura a eternidade?

V de Viver, 04.11.21

IMG_20211104_180642.jpg(Imagem: @poesia.voo)

Eu queria-te. Tu querias-me. Não era de hoje. Mais de cinco anos de trocas de olhares, uns de amizade, outros de algo mais. Eu sabia-o. Tu também. Mas a vida tinha outros planos para nós. 

Vida que segue. E seguiu. Mas com as voltas que só ela sabe dar quis o destino que as nossas almas, que já se tinham há muito reconhecido pela energia, se cruzassem e tocassem, finalmente. 

Permiti-me a vulnerabilidade. Permiti-me voltar a sentir de verdade ao fim de um ano de solidão. Permiti-me sentir-te. Permiti-me deixar que me levasses. E tu levaste-me. Levaste-me a ver a lua. Levaste-me a ver as estrelas. Levaste-me a ver os aviões levantar voo. Não tivemos tempo para quase nada, mas ainda houve tempo para promessas de tantos outros sítios onde me levarias. "Tu mereces tudo" - dizias tu. 

Mas a vida, com as tais voltas que só ela sabe dar, não quis que tivéssemos tempo. E eis que surge a maior reviravolta que podíamos ter tido. Surge o impossível da nossa história. Impossível talvez seja demasiado dramático, pensando bem. Porque a única coisa que pode, realmente, tornar um amor impossível é a morte. E felizmente nenhum de nós morreu. Mas há valores, princípios que ambos temos enquanto seres individuais. E tu seguiste os teus. E queres saber a verdade? Tenho orgulho em ti pela escolha [óbvia] que fizeste. Faria o mesmo, espero que saibas isso. 

Mas nada disso faz com que doa menos. Nada disso torna o fim do sonho mais fácil. Tenho palavras tuas gravadas no meu peito: "Quis-te durante tanto tempo e agora isto? Mas eu não consigo estar longe da minha filha, desculpa". Como poderia não te desculpar por me deixares por um motivo tão válido? Estávamos tão no inicio, é isso que me dói e que me acalenta a alma ao mesmo tempo, sabes? Pelo menos foi agora e não quando alcançássemos aquele ponto sem retorno [se é que não o tínhamos já alcançado]. 

Dói-me a tua partida mas ao mesmo tempo percebo-a. Talvez seja por isso que me dói ainda mais. Sinto que perdi algo que nunca cheguei a ter. 

Trataste-me tão bem, sabes? Melhor do que qualquer pessoa que passou na minha vida até hoje, juro-te. Foste o carinho que sempre procurei, o colo que nunca antes tinha recebido. E a certeza da permanência da tua partida dói-me mais do que qualquer outro adeus na minha vida. Fizeste o que tinha que ser feito. E só te desejo a maior felicidade do mundo. 

Foste o maior "e se?" da minha vida. Foste a mais breve eternidade que tive. E foste, também, a certeza de que depois de um amor, pode sempre chegar outro melhor. 

Dói muito, sabes? Pensar em tudo o que poderiamos ter sido. E sinto que podiamos ter sido muito, podiamos ter sido tudo. Estava tudo lá. Mas o destino não quis. E não se pode lutar contra o destino. Pelo menos não no nosso caso. "Quem me dera ter-te conhecido antes" - disseste-me mais que uma vez. Soubessemos nós o pouco tempo que nos restava para estarmos juntos...

Obrigada pelos momentos especiais. Obrigada pelo carinho. Obrigada por este pedacinho de eternidade. Obrigada por me teres mostrado que mereço alguém que me trate como uma princesa. Porque foi isso que fizeste neste tão breve momento de eternidade, trataste-me como uma verdadeira princesa. Parte, mais vai com a certeza de que nunca antes alguém me fez sentir tão especial. 

Um beijinho meu campeão. Terás sempre um lugar especial no meu coração. 

Prometo ser sempre tua amiga, tal como me pediste. E, acredita, não precisavas pedi-lo. 

O Mundo está podre

V de Viver, 21.09.21

O mundo está podre.

Não dá para confiar em ninguém. Meio mundo quer lixar outro meio mundo. As pessoas lutam por ficar por cima, por ver quem brilha mais, quem tem a vida melhor, o carro melhor, a casa melhor. É me quase impossível pensar em viver para sempre rodeada por pessoas assim. Pessoas que não se ajudam, que só sabem julgar, que só sabem criticar.

Por isso isolei-me.

Durante o último ano passei mais tempo sozinha do que acompanhada. Sozinha mesmo. Eu, comigo mesma. Na minha casa, na praia, na rua. Sempre sozinha. Por vezes isso magoa, principalmente nos dias em que existe algo bom para partilhar. É triste sim não ter com quem dividir as conquistas, não ter com quem partilhar a felicidade. Mas é ainda mais duro perceber que quando estás na merda não está lá ninguém. Dói, dói muito. Mata-te um bocadinho a cada vez que acontece. Mas é uma dor necessária. Porque é preciso que todos percebamos que só nos temos a nós. Só podemos confiar a 100% em nós. As nossas dores nunca serão totalmente entendidas pelos outros. As nossas conquistas nunca serão totalmente festejadas e sentidas pelos outros. É duro viver num mundo onde percebes que só te tens a ti. Onde não consegues confiar nas pessoas.

E não, não digo que não existam pessoas boas. Se assim fosse também eu não seria boa. E não sou o tempo todo. Também eu já falhei a alguém, tenho a certeza disso. Também eu já fui a dor de outra pessoa, a desilusão de outra pessoa. Mas gosto de pensar que vivo a minha vida de forma a ser essa pessoa o menor número possível de vezes.

Tu podes destruir-te a ti próprio se pensares demais neste assunto. Porque somos seres sociáveis e precisamos dos outros para socializar. Mas é triste ver naquilo em que o mundo se tornou. E a culpa é nossa. Só nossa. Nós que cá estamos é que permitimos que as coisas chegassem a este ponto. Pessoas que usam outras pessoas. Amigos que não o são de verdade. Amores que não duram mais do que o tempo de validade de um iogurte. Família que se magoa por migalhas. Colegas de trabalho que se chateiam por ver quem faz o melhor papel.

Competição não saudável. Em tudo. Medir forças em tudo.

Porque não medir forças para ver quem ama mais? Porque não medir forças para ver quem ajuda mais, quem se entrega mais, quem se apoia mais? Porquê medir forças apenas por coisas que não têm interesse? Não tenho ilusão de que possa mudar o mundo e transformá-lo num mundo cor de rosa e cheio de unicórnios. Mas recuso-me. Recuso-me a entrar nessa luta de quem tem mais e melhor, de quem faz mais e melhor. E por isso isolo-me. Porque é a melhor forma de não ter que lutar com ninguém.

Deixem-me estar. Deixem-me ficar aqui sossegada no meu desassossego interno.

Pelo menos aqui a minha competição é apenas comigo mesma.