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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Alentejo da minh'alma

V de Viver, 27.01.20

Estive um pouco ausente nos últimos dias, mas foi por um bom motivo.

Fui passar o fim de semana ao meu Alentejo. E só quem é do Alentejo é que sabe como é bom lá voltar. Na verdade, é sempre bom voltar a casa. Acredito que para todos, não apenas para mim ou para quem é do Alentejo. 

Já há uns meses que não ia lá e as saudades já eram imensas. Saudades da minha mãe, da minha irmã. Saudades da minha terra, das minhas origens. Quando era adolescente não gostava de morar no Alentejo. Vivi numa aldeia e sentia-me sufocada. As mesmas caras, as mesmas vozes, as mesmas conversas, dia após dia. Não deixa de ser engraçado o facto de ser disso que mais sinto falta. De sair à rua e cumprimentar toda a gente. De chamar as pessoas de vizinha ou vizinho em vez de as chamar pelo nome. De nos sentarmos na rua naquelas noites quentes de verão. O barulho dos grilos, dos sapos e dos carros a passar lá longe. As estrelas como cenário e por vezes a lua.

Mas se há algo que me deixa o coração doído de saudades são os meus avós. O Alentejo jamais terá o mesmo sabor após a morte deles. Já sabia disto há muitos anos. Disse-o, mais que uma vez, à minha mãe: "o dia que os avós morrerem voltar à aldeia não vai ter o mesmo sabor". Não me enganei. Não é a mesma coisa. Não é sequer possível passar à porta da casa deles sem chorar. Lágrimas de saudades. Lágrimas de quem só queria que eles fossem eternos. Mas não foram. A vida tem que continuar. E foi tão bom, mas tão bom, voltar ao colinho da mamã. Morria de saudades de estar na casa da minha mãe, da comida da minha mãe, dos serões à mesa redonda. 

É muito bom ter onde voltar. Sabe tão bem voltar aos braços da minha mãe. Sou imensamente grata por ter a mãe que tenho. Sei quem nem vale a pena escrever aqui que o que mais queria era que ela fosse eterna. Todos queremos, acredito, que as nossas mães sejam eternas. Mas se me fosse concedido um pedido, apenas um, pediria sem dúvida que a minha mãe fosse eterna.

Mas como o que é bom acaba depressa, cá estou eu de volta à minha rotina.

A vida segue. Espero que siga devagar.

Viver é tão bom. 

 

Éramos felizes e não sabíamos!

V de Viver, 18.10.19

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Hoje era o aniversário da minha avó. A minha única avó. A única que me quis e que me aceitou.

Após a morte da minha avó caí na dura realidade de que não há mais avós. O avô foi-se, a avó foi-se! Aí avós se vocês soubessem como foram o nosso pilar, a nossa raiz. Se soubessem como tivemos uma infância feliz graças a vocês. Obrigada por nos terem permitido crescer da forma que crescemos. A esfolar os joelhos no quintal, a sujar as mãos com carvão para desenharmos o jogo da macaca no cimento do quintal, por sujarmos as mãos na horta, por regarmos a horta e ajudarmos a carregar a lenha miudinha. Por termos tido a possibilidade de andar de bicicleta na travessa, de apanhar caracóis, de aprendermos a caiar. Como éramos felizes por termos carretas e fazermos corridas no quintal. Por termos crescido a espalhar os brinquedos pelo quintal e na casa do lume. Por termos cozinhado a fingir com talos da couve e cascas das batatas. Por temos aprendido lenga-lengas, anedotas e advinhas. Por nos terem ensinado a jogar às cartas, o que é um naipe, um rei, um duque. Pelas tardes a ver televisão deitados no chão, só uma manta por baixo, a comer batatas fritas na hora do calor porque só depois podíamos ir fazer asneiras para o quintal. Por termos percebido o que significa comer em união numa mesa redonda com braseira, e como dizia o avô quando começávamos a falar e a fazer demasiadas perguntas: “Ovelha que berra bocado que perde”. Obrigado avô por todas as vezes que nos foi levar e buscar à escola, muitas vezes debaixo de chuva só protegido pelo fraco guarda-chuva. Obrigada pela educação, pelas reprimendas, pelos incentivos. Obrigada até pelas palmadas avó, e obrigado por nunca nos ter dado uma palmada avô. Obrigada por nos deixarem crescer livres, por nos terem aturado as birras, por terem conseguido aguentar quando nos juntávamos quatro ou cinco lá em casa e a avó dizia “Um sozinho é um santinho, juntos são uns diabinhos”. Obrigado avô por nos ensinar que nem sempre o que está partido tem que se deitar fora, que as coisas podem ser reutilizadas, pois foi isso que nos mostrou desde muito cedo, que com algumas coisas velhas se faz um brinquedo. Uma mesa para as barbies, um roupeiro, um sofá. Obrigada por nos ter feito tantos brinquedos e já agora saiba que ainda os guardamos todos. Obrigada por nos deixar brincar no alpendre. Obrigada por nos deixarem “tomar banho” dentro do tanque da roupa, e por todos os banhos de mangueira no quintal, e pela água que nos deram a beber tantas vezes directamente do poço. Obrigada pelo feijão feito ao lume e pelas migas, nunca mais ninguém irá conseguir igualar o sabor da comida dos avós.

Obrigada por tudo, por terem feito parte da nossa vida, por terem sido sempre tão presentes, e por nos terem feito tão felizes. Foi, sem dúvida, devido à vossa presença que fomos crianças tão felizes. Guardo todos esses momentos com a certeza de que não poderia ter sido mais feliz do que fui na minha infância, e de que foi, sem dúvida alguma, a melhor fase da minha vida. 

Os dias felizes na casa (e principalmente no quintal) dos avós acabaram. Mas vocês viverão para sempre dentro de nós.  

Éramos felizes e não sabíamos!