Como pode doer o vazio?
Não sei por onde começar. Nem tão pouco o que quero dizer.
Algo dentro de mim dói. Uma dor miudinha que eu não quero deixar doer, que não tenho permitido que aflore. Ultimamente evito as lágrimas com a mesma força que evito o silêncio. Por vezes o silêncio fala demais e não encontro em mim forças para escuta-lo.
Dói. Sei que passa, sei sim. Mas talvez seja o facto de eu não permitir que doa, tudo de uma vez, que me faz arrastar esta dor no peito. Esta ausência de algo que eu acreditava existir. Talvez seja por me querer convencer que está tudo bem, que tinha que ser assim, que foi o melhor. Ou talvez seja por não deixar cair as lágrimas. Sim, já chorei. Mas sinto que não chorei tudo, contradigo-me por não conseguir chorar. Não é apenas não querer chorar, é que, realmente, não consigo faze-lo.
Esta dor é como um buraco. Parece que não está lá nada, porque efetivamente não está. Mas doí. E como pode doer o nada? Como pode doer o vazio?
Não sei se me dói o fim do que existiu, ou se o que me magoa é o fim daquilo que achei que existia. Não sei se tenho saudades da nossa história ou da história que acreditei que tínhamos. Porque é possível, é sim possível sentir falta daquilo que achámos que existia. Da ilusão que criámos na nossa cabeça e arrastámos até ao nosso coração. Ou será que criámos no coração e arrastámos para a cabeça?
Dói. Dói o silêncio que tento preencher com música alta, com o barulho das ondas do mar e com as gargalhadas que dou fingindo que está tudo bem. Dói a ausência. Dói a falta do companheirismo. Choro a perda de um amor, de um amigo, de um irmão. Talvez, afinal, não seja assim tão bom ter isso tudo na mesma pessoa. Dói a dor miudinha que não me deixa dormir de noite, que não desaparece mesmo quando corro até à exaustão. Dói a casa vazia ao final do dia. Dói a falta de ter a quem contar o nosso dia, de não ter com quem partilhar o riso e as lágrimas. Dói.
Dói e sei que não sou a única a passar pela dor. Neste preciso momento, em algum lugar no mundo, haverá pessoas a passar por dores piores. Sei isso e sinto-me, em parte, ridícula por estar a partilhar a dor da perda de uma relação. Há coisas tão, mas tão piores. Mas é esta a minha dor agora. É em mim que dói. Só eu sei a forma como dói. E as dores não se medem, não se pesam nem se comparam. Dói em cada um de sua forma e a vida nunca será uma competição de dores.
Mas acredito que a dor passará. Aliás, sei que a dor passará. Tudo passa. Todas as dores, todas as alegrias, todas as pessoas e momentos. Porque tudo é passageiro nesta vida. Inclusive nós mesmos.
Sei, acredito, quero acreditar, que um dia acordarei e esta dor terá passado. Que um dia, ao partir, a lua levará consigo a minha dor. Que um dia com o sol nascerá também a minha vontade de seguir. Porque a vida é isso mesmo. Seguir, mesmo que não conheçamos o caminho, mesmo que não saibamos para onde ir, não devemos nunca deixar de seguir. O caminho será sempre em frente. Mesmo que custe, sempre enfrente.
"Essa angústia que sentes por dentro é culpa de tudo o que não queres largar"
Miguel Ribeiro in O Céu é para quem não desiste de voar