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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Como pode doer o vazio?

V de Viver, 09.12.20

Não sei por onde começar. Nem tão pouco o que quero dizer.

Algo dentro de mim dói. Uma dor miudinha que eu não quero deixar doer, que não tenho permitido que aflore. Ultimamente evito as lágrimas com a mesma força que evito o silêncio. Por vezes o silêncio fala demais e não encontro em mim forças para escuta-lo. 

Dói. Sei que passa, sei sim. Mas talvez seja o facto de eu não permitir que doa, tudo de uma vez, que me faz arrastar esta dor no peito. Esta ausência de algo que eu acreditava existir. Talvez seja por me querer convencer que está tudo bem, que tinha que ser assim, que foi o melhor. Ou talvez seja por não deixar cair as lágrimas. Sim, já chorei. Mas sinto que não chorei tudo, contradigo-me por não conseguir chorar. Não é apenas não querer chorar, é que, realmente, não consigo faze-lo. 

Esta dor é como um buraco. Parece que não está lá nada, porque efetivamente não está. Mas doí. E como pode doer o nada? Como pode doer o vazio?

Não sei se me dói o fim do que existiu, ou se o que me magoa é o fim daquilo que achei que existia. Não sei se tenho saudades da nossa história ou da história que acreditei que tínhamos. Porque é possível, é sim possível sentir falta daquilo que achámos que existia. Da ilusão que criámos na nossa cabeça e arrastámos até ao nosso coração. Ou será que criámos no coração e arrastámos para a cabeça?

Dói. Dói o silêncio que tento preencher com música alta, com o barulho das ondas do mar e com as gargalhadas que dou fingindo que está tudo bem. Dói a ausência. Dói a falta do companheirismo. Choro a perda de um amor, de um amigo, de um irmão. Talvez, afinal, não seja assim tão bom ter isso tudo na mesma pessoa. Dói a dor miudinha que não me deixa dormir de noite, que não desaparece mesmo quando corro até à exaustão. Dói a casa vazia ao final do dia. Dói a falta de ter a quem contar o nosso dia, de não ter com quem partilhar o riso e as lágrimas. Dói.

Dói e sei que não sou a única a passar pela dor. Neste preciso momento, em algum lugar no mundo, haverá pessoas a passar por dores piores. Sei isso e sinto-me, em parte, ridícula por estar a partilhar a dor da perda de uma relação. Há coisas tão, mas tão piores. Mas é esta a minha dor agora. É em mim que dói. Só eu sei a forma como dói. E as dores não se medem, não se pesam nem se comparam. Dói em cada um de sua forma e a vida nunca será uma competição de dores.

Mas acredito que a dor passará. Aliás, sei que a dor passará. Tudo passa. Todas as dores, todas as alegrias, todas as pessoas e momentos. Porque tudo é passageiro nesta vida. Inclusive nós mesmos. 

Sei, acredito, quero acreditar, que um dia acordarei e esta dor terá passado. Que um dia, ao partir, a lua levará consigo a minha dor. Que um dia com o sol nascerá também a minha vontade de seguir. Porque a vida é isso mesmo. Seguir, mesmo que não conheçamos o caminho, mesmo que não saibamos para onde ir, não devemos nunca deixar de seguir. O caminho será sempre em frente. Mesmo que custe, sempre enfrente. 

 

"Essa angústia que sentes por dentro é culpa de tudo o que não queres largar"

Miguel Ribeiro in O Céu é para quem não desiste de voar

Solitude

V de Viver, 26.07.20

Ultimamente sinto apoderar-se de mim uma imensa vontade de estar sozinha.

Não sozinha no sentido de não sair da cama, não abrir a janela, chorar ou sentir-me deprimida. Nada disso.

É mais como uma necessidade de estar com alguém de quem preciso, de quem sinto falta, alguém que neste caso sou eu.

Nesta última semana tive cá por casa o meu tio e a minha afilhada. Devido a ter crescido sem pai, os meus tios, maridos das irmãs da minha mãe, acabaram por fazer, todos eles, um pouco o papel de pai. Dois deles mais que os outros. Um deles foi o que esteve cá durante a última semana, com a filha dele que, como já disse, é minha afilhada. Ter cá a minha família é das coisas que mais alegria me dá. Contudo, e sinto-me um pouco mal por dizer isto, acabei por me sentir dividida quando eles, ontem, foram embora. Se, como disse anteriormente, tê-los cá é das coisas que mais me preenche, por outro lado, ter ficado sozinha também me agradou. Sinto-me mal por dizer isto, sinto-me... não sei, talvez egoísta seja a palavra certa. Mas é o que sinto, sem dúvida.

Sinto-me bem quando estou sozinha. Sinto-me feliz na minha companhia. Gosto de caminhar sozinha. Gosto de ver filmes sozinha, passear sozinha, fazer as minhas refeições sozinha. Gosto de limpar a minha casa apenas e só pelo prazer de, no final da limpeza, me sentar no sofá e apreciar o momento. Gosto de passar horas agarrada a um livro sem ouvir ruídos, sem telemóvel, sem pessoas.

Enfim, gosto da solidão. Acredito que solidão é uma palavra forte, muitas vezes entendida como algo negativo. Mas não sei se por força do hábito ou por ter sido algo com que sempre tive que lidar, a solidão não me assusta. Não tenho medo de estar sozinha. Pelo contrário. Gosto de estar sozinha. 

Por vezes, o que me assusta é esta minha necessidade de solitude. Já recusei muitas idas à praia, muitos jantares de amigos ou de trabalho, muitos cafés ou cervejinhas ao entardecer. Tudo porque prefiro estar sozinha. Ainda há pouco, aqui sentada na minha velha cadeira de plástico na varanda, me recordava de que há umas semanas tinha falado com uns amigos e tinha dito que logo que tivesse um tempinho marcávamos (em casa) o tal jantar que andamos a adiar há meses. E sabem que mais? Eu estou de férias e tempo é coisa que não me falta. Mas, simplesmente, prefiro ficar sozinha. 

Não sei se isto é bom. Não sei se é mau. Nem sei quem é que pode analisar e afirmar o que é bom ou mau, certo ou errado para cada um de nós. A única coisa que sei é que cada vez mais sinto necessidade de me isolar das pessoas. Sinto que estou cansada das pessoas. E não vou mentir: isso assuta-me. Mas é algo que é mais forte que eu. Não é que eu não possa, agora mesmo, ligar a amigas e ir beber café, ou apenas dar um passeio. Eu posso. Mas não quero. 

Há cerca de quatro anos, quando vim viver sozinha, apareceu-me por acaso, ao "navegar" nas redes sociais, uma frase que me lembro de partilhar na altura. É algo que se foi mantendo actual na minha vida. Mas sem dúvida que nesta fase é, novamente, algo que faz muito sentido para mim:

"Você chega em casa, faz um café, senta na sua poltrona favorita e não tem ninguém... Você que decide se isso é solidão ou liberdade"

Para mim, solidão e liberdade sempre andaram de mãos dadas. E continuam a andar.

Silêncio, papel e caneta

V de Viver, 15.04.20

Silêncio. Pego no caderno e na caneta. Sento-me na poltrona junto à janela da sala. Vejo os passarinhos na varanda. Mais que vê-los, ouço-os. Deixo-me levar pela sua melodia. A caneta toca no papel. Ainda não sei o que escrever. A alma está cheia mas nem tudo saí para o papel. Nem tudo o que sentimos é fácil de descrever. 

Silêncio. Aprendi a escutá-lo com atenção nos últimos tempos. Faz muita companhia, descobri não há muito. Escuto-o. Escuto-me. Perco-me. Escrevo. Deixo fluir. Nada em concreto. Nada de especial. Sensações. Emoções. A caneta continua a ziguezaguear. A tinta marca o papel. Ideias. Sentimentos. 

Silêncio. Páginas humedecidas, salgadas. Lágrimas esborratam a tinta de palavras acabadas de redigir. Mas nem sempre. Por vezes sorrio. Por vezes estou feliz. Mas é ou não verdade, que as palavras mais sinceras e, por vezes, mais belas, surgem no papel em dias menos felizes? 

Silêncio. Contemplo o dia lá fora. Um pardal. Uma gaivota. Um som. Um cão a ladrar. Pessoas a falar. Carros a passar. Baixo o olhar na direção do caderno. Leio palavras que não me recordo de escrever. Mas só eu estou ali. Só eu seguro o caderno. Só a minha mão toca na caneta. São minhas as palavras, portanto. Dor. Amor. Felicidade. Tristeza. Fui eu que senti tudo isto. Fui eu que escrevi tudo isto.

Silêncio. Leveza. Paz. Os passáros continuam a cantar. A vida lá fora perdura. As minhas lágrimas secaram. A vida segue. Amanhã é outro dia. Outra possibilidade de ser feliz ou infeliz. Afinal de contas, quer escolhamos ser uma coisa ou outra, a decisão será sempre nossa. Só nossa. 

 

V. de Viver

Dolce far niente

V de Viver, 22.03.20

O sol aquece a sala através dos vidros da janela. Sento-me na poltrona. Um dos meus sítios preferidos na minha casa. Minha casa. Palavras que me aquecem o coração. Que sabem a sonhos realizados. Já fiz tudo o que precisava ser feito. Não tudo o que tem que ser feito. Mas tudo o que era urgente e importante. Apenas. Agora sento-me. Pego num livro. Abro-o e deixo-me perder. Perco-me. Deixo-me absorver pelas palavras que leio. Esqueço as horas. Divago, vou e volto. Levanto-me. Faço um café. Café. Um vicío. Todos temos algum, este é o meu. Sou absorvida pelo aroma do café quente a sair da máquina. Pego na chávena. Abro a janela e saio. Vejo o mar. Ouço as gaivotas. Ouço os pássaros. Ouço o vento. Sinto o sol. Sinto o café. Bebo. Fecho os olhos. E vou. Já não estou ali. Só o meu corpo permanece na varanda. Eu já fui. Deixo-me estar lá. Onde ninguém mais pode chegar. Lá. Bem dentro de mim. Volto. Abro os olhos. E agradeço. Apenas agradeço. Por estar aqui. Por estar viva. Por poder respirar. Volto à poltrona. Pego no livro. Estico as pernas. E volto a perder-me. Dolce far niente. Existem umas quantas traduções disponíveis para esta frase italiana. Para mim significa apenas a doçura de não fazer nada. 

E sabe tão bem. 

Inspira, expira e não pira

A minha experiência com a meditação

V de Viver, 10.03.20

Dez minutos. É tudo o que preciso para me encontrar. Por vezes sento-me. Outras vezes, deito-me. Relaxo o corpo. Encontro uma posição confortável. A mais confortável possível. Respiro fundo. Geralmente faço-o três vezes seguidas. Encho os pulmões. Deito o ar fora. Novamente, ar entra, ar saí. E, mais uma vez, inspiro, expiro. Concentro-me nos sons. Carros a passar. Pássaros a cantar. Pessoas a falar. Cão a ladrar. Tic-tac do relógio. Não me incomodam. Ouço-os e não os questiono. De seguida a parte que me permite sentir o corpo. O passo que me costuma aquecer. Imagino que estou a passar um scanner pelo corpo. Primeiro os pés. Sinto-os. Mas sinto-os mesmo. Por vezes, imagino que uma luz está a entrar pela sola dos meus pés. Que se vai alastrando. Passa pelos tornozelos. Pelos gemeos. Joelhos. E sinto, realmente, o corpo. Sinto-o a aquecer. A luz continua a subir. Cintura. Zona abdominal. Peito. Coluna. Músculos das costas. Tudo relaxado. Mãos. Braços. Pescoço. Cabeça. Tudo confortável. Tudo sentido. Seguidamente, foco a minha atenção na respiração. Sinto. Naquele momento, tudo tem que ver com o sentir. Sinto o ar a entrar, a encher os pulmões. E depois a leveza enquanto ele saí. E mais uma vez. Conto os ciclos de respiração. Um: inspiro. Um: expiro. Dois: inspiro. Dois: expiro. E assim consecutivamente até chegar ao dez. Por vezes faço a contagem regressiva. Outras vezes, ao chegar ao décimo ciclo, apenas contínuo a prestar atenção na forma como o ar entra e saí do meu corpo. Por vezes fico assim dez minutos. Outras vezes mais. Tudo depende do meu corpo. Daquilo que ele me pede. Não sei se é a isto que se chama "meditar". Mas sei que isto traz uma paz interior sensacional. Uma leveza enorme. Uma sensação de bem estar sem igual. A sensação de que, finalmente, estou em casa. De que estou aqui. Viva. Porque o nosso lugar deve ser aquele em que os nossos pensamentos encontram a paz. E lá, dentro de mim, eu encontro a paz. O silêncio acalma a alma e, muitas vezes, o barulho interior é superior ao exterior. É lá dentro que devemos estabelecer esse exercício de silêncio. Um dia li uma frase que dizia: "quanto mais te conheces por dentro, menos necessitas por fora". Hoje sei que isso é verdade. O caminho que tenho a percorrer ainda é longo mas para já, enquanto aprendo a valorizar o silêncio, estes minutos são o melhor que posso fazer por mim. Pelo meu bem estar fisíco e, principalmente, emocional. Porque tudo melhora por fora para quem se ilumina por dentro.