Um Prazer Inenarrável
Desafio 30 dias de escrita
Acorda com os pássaros a cantar. Uma maravilha da vida. Abre os olhos e sai da cama. É percorrida por um arrepio quando os pés tocam no chão frio. Sentir, mais um fenómeno que a vida lhe permite. Dirige-se à casa de banho a fim de tratar da sua rotina matinal. A água do duche desce-lhe pelo corpo. Mais uma vez, sente. A água morna, a sua brandura e delicadeza. Deixa-se ficar um pouco mais do que o necessário. Sai do duche. Limpa o corpo lentamente. Passa a toalha de banho pelo corpo com sutileza, como se de um carinho se tratasse. Veste qualquer coisa e percorre o exíguo espaço que separa o quarto da cozinha. Prepara uma torrada com compota de morango. Saboreia o seu pequeno almoço como se fosse a coisa mais importante do mundo. Vagarosamente, dentada após dentada. A compota é o capricho daquele dia. Quando, finalmente, termina a torrada, levanta-se e liga a máquina do café. Coloca a cápsula, carrega no botão. E, novamente, uma dádiva da vida. Sente o cheiro a café. Aquele cheiro intenso e ao mesmo tempo terno. O cheiro de um novo dia a começar. Sai da cozinha e vai até à janela da sala. Assim que abre uma fresta sente o vento. Moroso, brando, frágil, suave. E fresco. Como só o vento tem a capacidade de ser. É, mais uma vez, surpreendida pelo prodígio que é a vida. O que nos dá. O que nos permite sentir. Olha o mar, distante, e é assombrada pela leveza, a beleza, a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a imperturbável segurança que o mesmo aparenta. Sorri. Dá graças pela vida. Por ser tão simples. A vida é bela se não a complicarmos. Todas as sensações, todas as cores, todos os sons e cheiros. É um milagre. Viver é um milagre. Há coisas que não têm explicação. Por vezes, somos arrebatados por sentimentos que não sabemos descrever. Um prazer inenarrável, pensa ela: viver.
