Um Sonho Recorrente
Desafio 30 dias de escrita
Ela deve ter uns treze ou catorze anos. Talvez mais. Está naquele momento da adolescência em que começam as primeiras paixonetas. Ainda não tem um namorado, embora algumas amiguinhas já tenham. Ela não tem até porque, mesmo que quisesse, sabe que o marido da sua mãe nunca iria aceitar. Mas ela também não quer. Ainda acha cedo, caramba, ela ainda brinca com as Barbies acompanhada da sua irmã mais nova. Sabe que não tem nem quer ter um namorado ainda. Mas mesmo assim acorda a sentir-se mal. Uma sensação de perda. Dor. Sente-se ridicularizada. Como se alguém estivesse a gozar com ela ainda agora. Ah o sonho - Lembra-se. Sonhou mais uma vez que aquele rapaz que ela acha muito giro e que a faz rir a toda a hora era seu namorado. E isso podia ser bom, não fosse o facto de ela sonhar, constantemente, que ele a estava a trair. Enfim, coisas de adolescente.
Tem agora 18 anos e já não brinca com as barbies. Agora já trabalha. Já entrou na vida adulta (ela gosta de pensar que sim!). Já tem um namorado. Uma coisa séria. Já namora com ele há uns dois anos. Foi o seu primeiro namorado e ela tem a certeza que será o último. Mesmo assim, acorda banhada em suor. E em lágrimas. Uma sensação de não saber bem o que se passou. Não consegue encontrar explicação para estar a chorar daquela forma. Não passam, sequer, dez segundos e ela já percebeu o que a fez ficar naquele estado. Mais uma vez. O mesmo sonho. Anos e anos a sonhar a mesma coisa. Ainda não namorava com ele e já sonhava que ele a traía. Acorda e vai ver as últimas mensagens de texto que tem no telemóvel. No sonho ele acabou de enviar uma mensagem a dizer que acabou tudo entre eles. Ela vai confirmar, embora lhe pareça que está tudo como ela deixou antes de adormecer. Mas é melhor confirmar. Sim, há uma mensagem dele, mas diz: “Boa noite amor. Sonha comigo e já sabes que te amo mt mt mt mt mt…” não chega a ler todos os “mt” que lá estão. Ok. Está tudo bem. Mas devia ler sobre o significado dos sonhos, embora não saiba bem se acredita nisso.
Já está numa relação séria com ele há mais de sete anos. Tem 23 anos e já não trocam mensagens fofinhas com infinitos “mt” a seguir ao amo-te. Ele dorme ao lado dela. Ela tem a certeza que foi só um sonho. Mais uma vez. Ele estava a traí-la com uma rapariga com quem andou junto na escola. Riram-se dela quando ela entrou no café (ela nem costumava ir a cafés, mas onde raio ia buscar estas ideias?). Ele olha-a e diz-lhe: “achas que ia namorar contigo para sempre? Nem o teu pai te quis, ia eu querer?” Ausch. Essa doeu. Volta à realidade. Olha para ele só para ter a certeza, mais uma vez, de que ele ainda lá está. Foi só um sonho. Só mais um sonho. Devia mesmo ver o que significa sonhar com isto – pensa ela pela milésima vez na vida.
Tem 28 anos e ainda acredita no amor. Há uns anos acabou a relação (de nove anos) que mantinha, afinal, o rapaz que ela achava que seria o seu primeiro e último namorado já não existe na vida dela. Depois disso achou que queria ficar sozinha para sempre. Mas não ficou. Cá está ela a acordar mais uma vez a meio da noite. Cara lavada em lágrimas, ranho a escorrer do nariz. Acorda aos soluços. Com o passar dos anos os sonhos tornaram-se mais reais. Ou ela acha que o seu loiro é “o tal” e por isso os sonhos magoam mais. Não sabe dizer. Mas sabe que está capaz de chorar até ao próximo dia. Senta-se na cama. Não pode ser – pensa ela. Este sonho acompanhou-a a vida toda. Desta vez ele e aquela amiga que ela julgava que era amiga e descobriu, à pouco tempo, que é apenas uma rapariga que gosta de a copiar. Tudo o que ela lhe diz que planeia fazer essa “amiga” faz logo de seguida. Esse tipo de amiga que já todos tiveram, pelo menos, uma vez na vida. Talvez por isso, hoje sonha que ela lhe roubou o namorado. Ela sabe que não é verdade. Sabe que é só um sonho. Mas não consegue parar de chorar. Soluça alto. Ele acorda. – Que se passa amor? – diz ele com a voz obstruída pelo sono enquanto a puxa para si. Foi só mais um sonho parvo – diz ela enquanto se aninha ao lado dele, ainda a chorar. Encosta a cabeça ao ombro dele. – Não chores, está bem? Vais ranhar-me o ombro todo! – diz ele com toda a naturalidade do mundo enquanto volta a adormecer. Ela ri-se e chora ainda mais. Ele aperta-a. Sabe que ele disse aquilo para a fazer rir. Ele sabe qual foi o conteúdo do sonho. Ela já lhe contou várias vezes sobre o seu sonho recorrente. O único que a leva a acordar entre soluços e lágrimas.
