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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Uma Discussão Boba

Desafio 30 dias de escrita

V de Viver, 13.11.19

Ela tinha acordado bem disposta. Tão bem disposta quanto conseguia nos últimos tempos. Já não se reconhecia. Tinha saudades de acordar e saltar da cama a cantar. Saudades de andar sempre a sorrir, a brincar com todos e a espalhar boa disposição. Tinha sido sempre assim. Costumava dizer que era sempre ela a palhacinha, a que fazia todos rirem e a que acabava com as discussões mal entrasse no trabalho ou onde quer que o ambiente estivesse pesado. Mas 2019 viria a ser um ano muito difícil para ela. O ano em que ela se perderia da pessoa que costumava ser. E com o passar dos meses ela perderia a esperança de voltar a ser quem era. Aquele era só mais um dia em que ela sabia que as coisas não iriam correr como esperava. Mais um dia em que não encontrava um motivo para sair da cama. Mas saíra.Tomaram o pequeno almoço em silêncio. Ele percebia quando ela estava num dia mau. Aliás, quando estava num dia pior, porque maus tinham sido quase todos os dias do ano até ali. Ele olhou-a, viu que se lhe assomavam as lágrimas aos olhos, mas não disse nada. Sabia que não valia a pena, porque sabia que ela chorava mas não sabia dizer porque. Ele já tinha tentado ajudar várias vezes. Sim. Já tinha perdido horas a tentar fazê-la explicar o que se passava. Mas ela não falava. Não podia. Porque ela própria não sabia. Andava triste, desanimada, sem vontade de nada. Não conseguia precisar o momento em que se tinha tornado naquele tipo de pessoa que ela detestava. Acabam de tomar o pequeno almoço e ele dirige-se à janela para fumar. Ela não tira os cafés, nem se junta a ele, como costuma fazer. Não lhe apetece. Dirige-se ao quarto e faz a cama. Como em muitas outras vezes na vida as tarefas domésticas acabam por ser uma forma de escape ao que está a sentir. Quantas vezes já tinha dado por ela a iniciar uma limpeza geral à casa naqueles dias em que só lhe apetecia partir tudo à sua volta? Aquele dia não seria exceção. Trata da cama como se esta fosse, de seguida, ser cenário de uma sessão fotográfica. Todos os detalhes. Tudo no sítio, tudo esticadinho e perfeitinho, até ao mais pequeno pormenor. Vai tomar duche. Quando saí do duche ele está deitado em cima da cama. Ela estaca à porta do quarto e fixa-o de forma fria. Se tivesse que explicar de onde lhe vinha aquele sentimento de raiva, não saberia. Grita-lhe: - Só podes estar a gozar com a minha cara! Ele sobressalta-se e olha-a, confuso. - Que se passa? diz-lhe com a maior das inocências. Porque na verdade ele não sabe o que se passa. Nem ela sabe. - Eu acabei de fazer a cama! Estás aí em cima porquê? Foda-se! grita ela, cospe as palavras de uma forma que a leva a pensar, mais uma vez, que esta não é ela. Ele continua a olhá-la. Confuso. Não se levanta. E ela quase o enxota da cama. A gritar. Ele continua confuso, mas levanta-se. Passa por ela. Fixa-a com o olhar triste. E segue para a sala. Ela corre a ajeitar a cama. Veste-se e sai do quarto. Ele está deitado no sofá. Quando a vê diz-lhe: - Era preciso aquilo tudo? É só uma cama e sabes bem que eu arrumava quando saísse dali. Há desilusão na sua voz, o que a deixa ainda mais irritada. Porque sabe que ele está certo. Sabe que mais uma vez a sua reação foi super exagerada. Ele levanta-se do sofá e vai fumar outro cigarro. Deixa-a sozinha na sala. E ela sente novamente aquela sensação de abandono. Aquela sensação de que ninguém se importa com ela ou com os seus sentimentos. De que está a cair e ninguém lhe vai amparar a queda. De que não há ninguém ali. A mesma sensação. Anos e anos a fio. A sensação de rejeição. Relembra, mais uma vez, as palavras de uma qualquer psicóloga à sua mãe: "A sua filha poderá vir a desenvolver no futuro uma má relação com os homens devido ao facto do pai nunca a ter aceitado. Poderá ainda sofrer de outros problemas a nível emocional". Aquelas palavras acompanharam-na sempre. Mas nunca achou que fizessem sentido. Afinal de contas ela tinha tido namorados. Mas será que aquela sensação de abandono não se devia ao facto de nunca ter tido um pai? De saber que ele nunca a quis, sequer, conhecer? Ela não sabe, não estudou os problemas da mente, porque graças ao desgraçado que a fez ela nem dinheiro teve para estudar. Ao pensar nisso a raiva volta a assumar. Dá-se conta que ele entrou na sala no momento em que levanta a cabeça para limpar as lágrimas que lhe escorrem pelo rosto. Ele chega até ela. Encara-a. Não diz nada. Limpa-lhe uma lágrima. Ela afasta-o. Não precisa de ninguém, tem a certeza disso. Ele pára, mas continua em frente dela. Ela chora ainda com mais força por ver que ele não vai embora. Ele abraça-a. E ela chora compulsivamente. Ele está ali. Não vai embora. Mesmo depois da discussão boba que ela gerou, ele mantém-se com os braços à volta dela. Ele deposita-lhe um beijo na cabeça. Diz-lhe que vai ficar tudo bem.

E fica.

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