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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, escrevo.

Uma Obra de Arte

Desafio 30 dias de escrita

V de Viver, 17.11.19

Desde muito nova que gostara de escrever. Mas desenhar nunca tinha sido o seu forte. Quando a professora de História lhes mandou fazer uma banda desenhada sobre a Conquista de Ceuta sentiu-se, imediatamente, apavorada. Embora gostasse da disciplina, a nota não era a melhor.  Precisava de uma boa nota no trabalho para poder subir a média. Pensou no trabalho durante todo o percurso de autocarro que separava a cidade onde estudava e a aldeia onde vivia. Pelo menos era sexta-feira e tinha o fim de semana todo para pensar numa forma de realizar um bom trabalho. Durante a viagem, ao passar junto às terras que pertenciam ao seu tio, teve uma espécie de vislumbre da solução para o seu dilema. O tio. Claro, como podia não ter pensado nisso antes. O tio era a pessoa indicada para a ajudar. Só não sabia se ele iria ter tempo, mas logo que chegasse à aldeia iria falar com ele. Assim fez. Na paragem do autocarro, em vez de seguir o caminho que a levava à sua residência, subiu a íngreme rua que levava à casa dos tios. Falou com o tio que aceitou contribuir para o trabalho, feliz por poder ajudar. A tia convidou-a para almoçar no próximo dia e assim ela e o tio poderiam fazer o trabalho. Na manhã seguinte, mal acordou, pediu à mãe se podia ir para casa dos tios fazer o trabalho. A mãe acedeu e ela foi. Os tios já estavam à espera dela. A tia tinha acendido o lume na lareira, o tio tinha, como sempre, a música ligada. Depressa se espalharam os materiais que haveriam de usar para o trabalho. Ela explicou ao tio o que pretendia. Ele disse-lhe que faria os desenhos, mas que tudo o resto seria ela a fazer. Ela anuiu. Não esperava outra coisa. E, assim, deram inicio ao trabalho. Das colunas saía a música dos Metallica, uma das bandas preferidas do tio. Da cozinha chegava o cheiro da comida que a tia preparava para o almoço. O calor e o crepitar da lareira deixavam na sala um ambiente acolhedor. Por vezes perdia-se a olhar para as mãos do tio. Aqueles desenhos perfeitos, o toque suave e a facilidade com que ele fazia aparecer as ilustrações deixavam-na estupefacta. Nunca seria capaz de desenhar assim. O tio presenteva-a com uma ligeira cotovelada sempre que ela se distraía. Sabia que ela estava a admirá-lo, mas não queria que ela perdesse o foco naquilo que estava a fazer. Horas mais tarde, já depois de terem degustado o almoço preparado pela tia, finalizaram a banda desenhada. Depois de ambos terem feito a parte que lhes competia, afastaram-se do trabalho, e chamaram a tia. Ficaram os três a olhar para a tarefa que tinham concluído. Em algumas horas de dedicação tinham completado uma obra de arte. Viria a ser o melhor trabalho da turma. - Tio, tu és o melhor, tive a nota mais alta. A professora adorou. Disse-lhe ela quando recebeu a nota. - O mérito foi todo teu. Eu só fiz os desenhos, e que eu saiba a avaliação não era ao desenho. Respondeu ele. Ela pensou um pouco sobre o assunto. Era verdade. Mesmo assim respondeu ao tio: - Fazemos uma excelente equipa tio. Ele sorriu e anuiu. Sim, faziam.