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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

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05
Nov19

Uma previsão do futuro

Desafio 30 dias de escrita


V de Viver

Sonhar acordada sempre foi um dos passatempos preferidos dela. Ora estivesse em casa deitada no sofá ou no seu quarto. Ora estivesse no autocarro a caminho da escola. Podia até estar na fila para ir à casa de banho ou para a caixa do supermercado. Ela perdia-se nos seus pensamentos e acabava a imaginar a sua vida no futuro. Como todas as adolescentes a primeira coisa que ela imaginava era como seria a sua vida adulta. Será que conseguiria estudar psicologia? Sempre quisera mas achava que a mãe não tinha posses para lhe permitir estudar na universidade. Mais tarde veio a comprovar-se que ela estava certa, mas na altura ela não sabia. Era apenas uma adolescente sonhadora. Por vezes imaginava-se a viajar pelo mundo. Primeira paragem Itália. Depois Alemanha. Seguia para a Suécia. Por, na imaginação dela, parar em tantas cidades diferentes acabava por ser, por alguém, interrompida do seu devaneio mais ou menos na altura em que se encontrava a chegar à Noruega ou à Irlanda. Também sonhava que comprava um carro e percorria o país de lés a lés. De todas as previsões do futuro que ela fazia a que mais lhe agradava era a de se ver a casar, comprar uma casa com piscina e ver os filhos a correr no jardim. Sim, era uma adolescente sonhadora. Dizia para si mesma que iria casar aos 23 anos e seria mãe até aos 25. A casa com piscina já teria sido comprada para poder receber os seus filhos, um quarto para cada um, e talvez, sim, talvez um quarto só para eles brincarem. Os seus filhos teriam um pai. Não passariam pela vida sem nunca chamar ninguém de pai, como acontecera com ela. E, claro, que teria uma biblioteca só para ela. Todas as paredes forradas de estantes do tecto ao chão. Livros e mais livros, de todas as cores, tamanhos e autores. Sim, sem dúvida que isso aconteceria, pensava ela do alto da sua inocência. O que ela não sabia é que chegaria aos 28 anos sem absolutamente nada disso. Não, isso ela não previra. Também não previra que se haveria de esforçar muito para ter, metade, daquilo que sonhava e que mesmo assim se lhe fechariam muitas portas. Não contava ter que trabalhar tanto para não conseguir, sequer, a biblioteca dos sonhos dela. Sim, talvez comprasse um livro por mês, quando conseguia, mas nunca previra que isso seria por ela considerado um luxo. Como qualquer adolescente sonhadora ela não previra todas as dificuldades, todas as pedras no caminho. Mas ela também não previra que seria uma pessoa tão resiliente. Que se levantaria após cada queda, na maioria das vezes sozinha. Não previra que a vida não seria como ela sonhava nem que, mesmo assim, ela iria adorar vivê-la. Anos mais tarde, num dos livros a que se tinha dado o luxo de comprar, leria um trecho que diria: "Não me parece que exista alguém cuja vida tenha correspondido exactamente ao que imaginou. O máximo que podemos fazer é aproveitá-la o melhor possível. Mesmo que nos pareça difícil.“ Seria para sempre um dos trechos preferidos dela.

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