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Coisas que eu [não te] disse

Tudo o que não consigo dizer, apenas escrever.

Coisas que eu [não te] disse

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23
Mar20

Vou contar-vos uma história...


V de Viver

Era uma vez uma menina que sempre se achou diferente das outras. Logo em pequena via as amiguinhas com a mamã e o papá. Ela só tinha a mamã. Mas não se importava porque era feliz.

Foi crescendo e começou a perceber que continuava a ser diferente das amiguinhas. Enquanto ela era gordinha, as amigas eram magrinhas. Mas era uma criança, e as crianças não querem saber dessas coisas para nada. 

Como o tempo passa a correr, depressa ela se transformou em adolescente. Foi aí que as diferenças se acenturam e foi, também, aí que ela começou a senti-las com mais intensidade. Nos intervalos para o lanche juntava-se um grande grupo para comer no parque da escola. Cada um comia o que trazia de casa ou então o que ali comprava. Sandes mistas, bolachas, batatas fritas, sumos e tudo aquilo que os adolescentes gostam de comer. Ela não era diferente nisso. Também gostava de todas essas coisas, excepto de sumos, ela não gostava de sumos. Um dia enquanto um grupinho de meninas, do qual ela fazia parte, estavam a comer batatas fritas, uns colegas chegaram e, embora todas estivessem a comer a mesma coisa, um deles disse-lhe: "eh gorda, achas normal estares a comer porcarias?" Ela não percebeu. Estava habituada a que lhe chamassem gorda mas não percebia porque é que aquele comentário tinha que lhe ser dirigido apenas a ela. Afinal de contas estavam todas a comer a mesma coisa. 

O tempo passou. O tempo passa sempre muito rápido. Ela foi para a escola secundária. Claro que ela já se sentia diferente das outras. Por isso, quando, após os almoços na cantina, as amigas se dirigiam ao café para comprar gomas e chocolates ela ia, mas não comprava nada. Já sabia que ia ser olhada de lado porque era a única gordinha, e "as gordas não podem comer porcarias". Era uma frase que lhe estava quase tatuada, portanto, já evitava ter de a ouvir. Mas ela, afinal de contas, também era uma adolescente, não é? E os adolescentes conseguem ser ardilosos. Ela podia ser gorda, mas não era burra. Enquanto as amigas comiam no parque da escola, juntamente com os amigos ela dizia que tinha que ir à casa de banho. Levantava-se e ia, sozinha. Entrava na casa de banho, trancava a porta e comia o Twix que tinha trazido de casa. Ali ninguém a criticaria.

A vida seguiu. E quis o destino que a vida dela mudasse de uma forma que ela não foi capaz de controlar. Então, aos dezoito anos, deixou a candidatura da universidade aceite em cima da mesa e, contra todos os sonhos que tinha, começou a trabalhar num supermercado para poder ajudar a mãe. Não se envergonhou nem um bocadinho. A educação que lhe tinha sido passada pela mãe e pelos avós era que trabalhar é honra. E é. E por isso ela trabalhava todos os dias, com um sorriso nos lábios. Mas a mente dela continuava a levá-la a tomar decisões estranhas. Decisões que ela tomava havia muitos anos. Comer quando estava triste. Comer quando estava feliz. Comer porque sim. Comer porque não. E ela continuou a ser a gordinha. Comia escondida para não ser criticada. Comia chocolates, comia bolachas, comia bolos. Comia o que lhe apetecia. Mas só escondida, aos outros dizia que estava sem fome e nunca, jamais, comia "porcarias" à frente de ninguém. 

A vida seguiu, ele teve mais trabalhos. Tinha uma vida normal. Tinha namorado, tinha amigas. Era considerada muito simpática pelas pessoas que a rodeavam. Uma pessoa sempre alegre e bem disposta. Mas ninguém a conhecia de verdade. Ninguém sabia o segredo que ela escondia. Ninguém podia imaginar que ela comia tabletes inteiras de chocolate de uma só vez. Que comia um pacote de Filipinos em menos de dez minutos. Ninguém sabia. Ninguém via. 

Ela vestia um tamanho 42/44 mas, em seis meses, passou para um tamanho 48. Foi o tamanho máximo a que chegou. Mas os comentários das pessoas que a rodeavam, principalmente no trabalho, faziam-na sentir como se vestisse um 58. Certo dia decidiu que a vida tinha que mudar. Estava cansada de ser assim. Cansada de não gostar do que via no espelho. Cansada de nunca ir à praia ou à piscina com o grupo de amigos, cansada de não sair por não ter o que vestir que lhe assentasse como nas amigas. Cansada daquela frase que tanto lhe diziam: "tens uma cara tão linda, devias emagrecer um bocadinho".

Inscreveu-se no ginásio. Começou a treinar e, aquilo que ela pensou que iria ser uma tortura, tornou-se num escape. Reduziu aquela vontade de comer a toda a hora. Deixou de comer às escondidas. Emagreceu e andava feliz. Afinal de contas já estava a ficar menos diferente de todas as outras colegas e amigas. Mas, por muito felizes que estejamos, há sempre alguma coisa que pode correr mal. E com ela não era exceção. E nos dias maus a fome voltava. E ela, mais uma vez, comia tabletes inteiras, bolachas, gomas, tudo aquilo que lhe preenchesse o vazio.

Mas enquanto a vida segue as pessoas crescem. E eu disse-vos no ínício desta história que ela não era burra. Não. Ela era até um pouco inteligente. E um dia soube que sofria de compulsão alimentar. Ninguém lhe disse. Ela leu, e leu, e leu sobre o assunto. E percebeu que se falava muito de transtornos alimentares: bulimia e anorexia. Mas ninguém falava de compulsão alimentar. As pessoas eram gordas porque não sabiam fechar a boca, ou porque não tinham força de vontade. E com o passar dos anos ela percebeu que era mentira. O que não falta numa pessoa com excesso de peso é força de vontade. Perguntem a uma pessoa obesa quantas dietas ela já tentou? Dieta das maçãs, dieta de Dukan, dieta da Beyoncé, dieta low-carb, dieta Atkins. Uma pessoa com excesso de peso conhece-as todas. E, provavelmente, mais algumas. Já tentou de tudo e continua a tentar, e as pessoas dizem que elas não têm força vontade? 

Então ela começou a ler, a estudar. E percebeu que tinha que controlar as emoções. Que a fome que ela não conseguia matar era a fome emocional. E leu. E continou a ler, a pesquisar a procurar. E depois percebeu que não estava sozinha. Que não era a única. Que havia muitas mais mulheres com o mesmo problema. Mas as pessoas sentem vergonha. Ela também sentia vergonha.

Mas continuou a ler. Mas a vida não parou para ela ler, para ela estudar. A vida continuou. E a dela deu umas quantas voltas. Saiu de onde estava, foi viver para uma terra diferente, um trabalho diferente, e tinha recaídas. Continuou a tê-las. Mas agora ela já sabia qual era o problema. E é mais fácil lidar com alguma coisa quando sabemos do que se trata, certo? Fora necessário chegar aos vinte e oito anos de idade para perceber qual era o problema. E percebeu que não é o que ela come. É o quanto ela come, o porquê do que ela come. Percebeu que as pessoas fizeram um filme gigante à volta da alimentação, de tal forma que aparecem listas na Internet, e até em revistas sobre alimentos proibidos! Alimentos proibidos? Ela não é nutricionista. Não estudou medicina, nem ciências da nutrição e as suas palavras valem o que valem. Mas, alimentos proibidos? Já se deram alguma vez conta de que se alguém vos disser: "não pensem num morango", o vosso primeiro pensamento é um morango? Porque o nosso cérebro é assim mesmo. Agora imaginem se alguém vos disser: não pode comer pão e chocolate. Vocês vão andar sempre a pensar no pão e no chocolate. Acreditem!

Mas, voltando a ela, que é a personagem principal desta história. Ela continua a lutar todos os dias contra essa doença. A cada dia que passa ela está mais firme, mais convicta e as coisas correm melhor porque acabam por sair naturalmente. A única coisa que ela quer é que mais pessoas que sofram do problema saibam que não estão sozinhas. Ela quer que quem lida com adolescentes tenha o cuidado de lhes explicar que todos os corpos são perfeitos. Que o nosso corpo é perfeito desde que o amemos.

Ela é a V. e não posso dizer qual é o fim desta história, simplesmente porque não sei. A vida dá voltas, a vida corre, a vida muda. Mas hoje, tenho a certeza que ela é mais forte que ontem, e com certeza menos do que amanhã. 

Podemos aprender todos os dias. Podemos ser melhores todos os dias. Nunca devemos buscar a perfeição. Mas acima de tudo, devemos sim, amar quem somos, muitíssimo.

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